
O ator Patrick Dempsey pode muito bem servir como representação ideal de um mocinho, seja na TV ou no cinema. Em mais de 40 anos de carreira, ele é a cara das comédias românticas clássicas dignas de Sessão da Tarde, interpretando arquétipos de príncipe encantado em diversas produções, incluindo na Disney. Logo, causou certo choque quando o eterno galã foi escalado para viver um matador no drama Memória de um Assassino (HBO Max).
A explicação por trás desse papel radicalmente distinto é bastante simples até: alguém teve a coragem de oferecer a ele um trabalho que não fosse de um bom moço.
“O que realmente me atraiu foi o lado de assassino e, claro, a parte ligada ao Alzheimer e à demência”, disse Dempsey, em entrevista ao site The Hollywood Reporter, fazendo referência ao seu papel mais emblemático na TV, de Derek “McDreamy” Shepherd em Grey’s Anatomy, médico que dedicou anos ao estudo da mesma doença que agora ameaça a lucidez do novo personagem.
“Esse tipo de personagem quase nunca aparece para mim”, continuou. “E tudo aconteceu muito rápido. Precisei ler o roteiro e tomar uma decisão em 24 horas, porque eles estavam prestes a fazer o anúncio [da encomenda da série] durante os upfronts da Fox, em maio passado. Fiquei surpreso, intrigado e empolgado com a chance de fazer algo assim.”
Em Memória de um Assassino, Dempsey interpreta Angelo Flannery, que leva uma existência aparentemente banal na pequena e idílica cidade de Hudson Springs, no interior do Estado de Nova York. É um vendedor de máquinas copiadoras… Mas isso é fachada: ele, na verdade, é um assassino profissional (e dos bons).
O ator comentou sobre entrar em um universo estranho, ainda mais aos 60 anos. “Eu gosto de ação”, afirmou. “Gostaria muito de fazer mais disso. Um papel como esse me obriga, na minha idade, a ser muito cuidadoso com a saúde, manter-me ativo, treinando e me exercitando. E isso é algo positivo.”
A exigência que o trabalho em Memória de um Assassino pede também o ajudou a encarar esse desafio diferente: “Dá uma motivação extra para continuar trabalhando duro e com disciplina, e eu gosto muito desse aspecto. Com sorte, poderemos explorar ainda mais essas sequências em uma (possível) segunda temporada.”
E a aposta deu certo, vale registrar. O drama investe neste recurso específico, o de transformar a longa reputação de Patrick Dempsey como galã romântico em ferramenta narrativa. A familiaridade construída ao longo de décadas com o público ajuda a humanizar um protagonista moralmente ambíguo, capaz de cometer atos brutais e, ainda assim, despertar empatia.
Nesse jogo de contrastes, o matador implacável ganha contornos de anti-herói. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



