
A HBO Max lança no Brasil, nesta quinta-feira (19), uma série com grande potencial. Chega ao catálogo Memória de um Assassino, drama criminal sobre um matador com sinais de Alzheimer, questão que permeia toda a narrativa e oferece muitas oportunidades interessantes a serem exploradas numa produção desse tipo.
Afinal, o personagem central, vivido por Patrick Dempsey (Grey’s Anatomy), não brinca em serviço. Ele é preciso e determinado a cumprir suas missões como um assassino profissional. Porém, ele se desespera ao esquecer onde estacionou seu carro após cometer um assassinato nada trivial, por exemplo. Essa perda de memória é um ingrediente apetitoso, capaz de mover a trama para rumos empolgantes.
O que acontece em Memória de um Assassino
Na pequena e idílica cidade de Hudson Springs, no interior do Estado de Nova York, Angelo Flannery (Dempsey) leva uma existência aparentemente banal. Ele é um vendedor de máquinas copiadoras e passa boa parte do tempo fora de casa, mas nunca deixa de acompanhar a rotina da filha, Maria Kahn (Odeya Rush).
Professora e grávida do primeiro filho, Maria divide a vida com o companheiro Jeff Kahn (Daniel David Stewart), desenvolvedor de aplicativos que, no momento, sobrevive de trabalhos esporádicos, situação que inquieta o sogro, sempre atento à estabilidade financeira da família.
A fachada, no entanto, é somente isso: uma encenação meticulosamente ensaiada. Ao informar que participará de uma convenção de vendas em Rochester, Angelo, na verdade, segue para uma cabana isolada no meio da mata.
Lá, abandona o discreto um carro da Volkswagen, assume o volante de um Porsche turbinado, troca as roupas de “pai de família” por um terno de grife com camisa escura e reúne as armas necessárias para a verdadeira ocupação que o espera na cidade grande.
Em Nova York, ele atende por outro sobrenome: Boyle, Angelo Boyle. Sob essa identidade, atua como assassino de aluguel a serviço do amigo de infância Dutch (Michael Imperioli), dono de restaurante e chefão do crime.
A eficiência é a marca registrada de Angelo. Quando o sobrinho de Dutch, Joe (Richard Harmon), avisa que o alvo da vez, ligado à Yakuza, não está na mesa prevista em um salão, Angelo adapta o plano sem hesitar. O serviço é executado à queima-roupa, com improviso letal. A haste de um suporte de papel-toalha de banheiro se transforma em instrumento de morte.
A habilidade vai além do ofício clandestino. Ele também se mostra exímio em separar suas vidas bem distintas. Para Dutch, é um lobo solitário sem vínculos familiares; para Maria, apenas um vendedor itinerante.
Enquanto cumpre tarefas na metrópole, ainda encontra tempo para visitar o irmão Michael (Richard Clarkin), internado em uma instituição especializada em cuidados para pacientes com perda de memória. O Alzheimer que apagou grande parte das lembranças do irmão começa, silenciosamente, a rondá-lo também: lapsos ao tentar recordar o código do alarme do apartamento ou a perturbadora troca entre o cofre e a geladeira para guardar a arma revelam fissuras preocupantes.
Como se o equilíbrio já não fosse frágil o bastante, sinais de que ambos os universos podem colidir tornam-se cada vez mais evidentes. Um homem em uma caminhonete azul passa a segui-lo, alguém com pleno conhecimento de seu endereço em Hudson Springs. Paralelamente, Earl Hancock (Ian Matthews), o motorista embriagado responsável pela morte de sua mulher, mãe de Maria, anos atrás, ganha liberdade antecipada.
Entre a paisagem serena do interior e a brutalidade calculada das ruas nova-iorquinas, Angelo se vê encurralado por ameaças externas e por um inimigo ainda mais íntimo: a erosão da própria memória. O que antes era um elaborado jogo de máscaras começa a dar sinais de desgaste. E, quando identidades tão antagônicas se aproximam demais, o desfecho raramente é indolor. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



