
Em 2023, Hollywood foi palco de uma greve histórica dupla, dos atores e roteiristas, ato que paralisou a indústria do entretenimento durante seis meses. Três anos depois, a ameaça de uma nova cruzada de braços dos profissionais do audiovisual americano é real. Para evitar isso, os patrões estão armando um plano para firmar um acordo mais próspero e longevo com os sindicatos.
O atual contrato com o sindicato dos atores (SAG) termina em 30 de junho, assim como o vínculo com os diretores (DGA); estes não entraram em greve há três anos. Enquanto isso, o arranjo vigente com os roteiristas (WGA) chega ao fim em 1º de maio. Claro, todos os envolvidos querem resolver as celeumas antes dessas datas para que a máquina hollywoodiana siga em frente a todo vapor.
Já nos primeiros dias de 2026, um movimento fora do padrão começa a ganhar corpo nos bastidores. A entidade patronal Alliance of Motion Picture and Television Producers (AMPTP), que representa estúdios e plataformas de streaming, considera oferecer contratos de cinco anos aos principais sindicatos hollywoodianos, rompendo com a tradição histórica de pactos trienais.
A ideia surge como reflexo direto das greves de 2023, que provocaram prejuízos bilionários às empresas de entretenimento. Ainda não há propostas formais sobre a mesa, mas conversas preliminares indicam que o tema já circula de maneira informal, como costuma ocorrer antes da abertura oficial das negociações.
A simples cogitação de estender a duração dos acordos chama atenção por contrariar um modelo adotado desde pelo menos a década de 1940.
Para a pesquisadora Kate Fortmueller, professora da Georgia State University e especialista em relações trabalhistas em Hollywood, a mudança alteraria profundamente a dinâmica do setor. Segundo ela, ampliar o intervalo entre negociações pode aumentar a pressão sobre cada rodada, já que decisões tomadas hoje teriam impacto prolongado nas condições de trabalho.
Do ponto de vista sindical, a estrutura atual oferece vantagens claras. Negociações mais frequentes permitem ajustes mais rápidos às transformações da indústria, especialmente em um momento de aceleração tecnológica.
A ascensão da inteligência artificial tornou-se um dos eixos centrais das discussões recentes, levando WGA, DGA e SAG a incluir, nos entendimentos fechados em 2023, reuniões semestrais específicas para tratar do tema com os estúdios. A expectativa é que a inteligência artificial (IA) volte a ocupar lugar central nas pautas de 2026.
Esse contexto torna a hipótese de contratos mais longos potencialmente sensível. Dirigentes sindicais avaliam que um período maior sem renegociação poderia reduzir o poder de reação dos trabalhadores diante de mudanças rápidas, como novas aplicações de IA, alterações nos padrões de remuneração residual, financiamento de planos de saúde ou processos de fusão e consolidação empresarial.
Nos bastidores, há quem veja o discurso de “estabilidade” defendido pela AMPTP com desconfiança.
A condução das negociações ficará, pela primeira vez, a cargo de Gregory Hessinger, que assumiu recentemente a liderança da entidade patronal após a saída de Carol Lombardini. Advogado experiente do lado de quem emprega, Hessinger também conhece a perspectiva do operário: nos anos 2000, ocupou cargos de direção no sindicalismo defendendo o ponto de vista dos atores.
Para a AMPTP, acordos mais longos poderiam significar um ambiente menos conflituoso e maior previsibilidade, especialmente para trabalhadores de bastidores, aqueles que estão longe dos holofotes e que sustentam a indústria. Mas, para os roteiristas, por exemplo, o temor é que a ampliação dos prazos resulte em menor atenção às condições de trabalho ao longo do tempo. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



