ANÁLISE

Grito do rap contra violência policial chega na Globo pela série Rota 66

Narrativa traz como a Rota provocou medo na periferia e deflagrou extermínio
DIVULGAÇÃO/GLOBOPLAY
A atriz Naruna Costa na série Rota 66
A atriz Naruna Costa na série Rota 66

Mensagem non grata na Globo, o grito proferido pelo rap nacional contra a violência policial entra em plataforma da organização platinada pela série Rota 66, nova produção do Globoplay. O drama, baseado em fatos reais, expõe como a Rota, pelotão de elite da polícia militar paulistana, tocou o terror nas periferias da cidade de São Paulo, matando a esmo pessoas inocentes, homens pretos e pobres.

Durante os anos 80, 90 e 2000, o rap nacional foi a voz da periferia. Em rimas inteligentes e politizadas, grupos como Consciência Humana, Racionais Mc’s, Facção Central e Realidade Cruel relataram a ação truculenta e sanguinária da polícia nos bairros mais afastados do centro. Esse tipo de recado nunca teve e não tem espaço na Globo, que só abre as portas para o rap mais midiático.

Logo, é interessante notar como uma série com o teor de Rota 66 ganhou espaço no Globoplay. Baseada em livro homônimo do jornalista Caco Barcellos, a narrativa é similar às músicas dos rappers da cena clássica brasileira. São histórias de vítimas da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), de familiares que perderam parentes assassinados pelos homens de farda e de táticas da polícia para executar e acobertar um verdadeiro massacre.

A atração mostra Caco Barcellos, interpretado por Humberto Carrão, dedicado a provar o que se sabia nas ruas: policiais da Rota estavam dizimando jovens pretos sem justificativa, atirando para matar e só depois perguntando o nome (verso feito pelo Consciência Humana na faixa Tá na Hora).

Humberto Carrão na pele de Caco Barcellos em Rota 66
Humberto Carrão na pele de Caco Barcellos em Rota 66

Nessa missão, ele mergulha em documentos oficiais e em relatos de O Noticiário Popular (imitando o real Notícias Populares, o jornal que espirrava sangue). Como mostrado no livro, o repórter computou 4 mil mortes praticadas pela Rota entre as décadas de 1970 e 1990.

Rota 66 fez um ótimo trabalho de direção de arte, como resgatar os carros usados pela Rota naqueles anos, e construir uma boa narrativa, destacando os relatos do lado mais fraco do sistema. É essa a importância da série, dar voz a quem foi alvo da polícia, direta ou indiretamente, assim como o rap nacional fez.

Quem morava na periferia nesses anos, vivia sob um toque de recolher extraoficial. Não era recomendado estar na rua depois das 22h, seja conversando com alguém ou saindo do trabalho/escola rumo à casa. Caso contrário, a chance de cair na mira da Rota era grande, um enquadramento quase sempre trágico, no mínimo traumático.

No começo dos anos 1990, Paulo Maluf sentou na cadeira de prefeito de São Paulo apoiado no lema “Rota na rua”, incentivando os policiais do pelotão a agir sob a cartilha agressiva deles. O medo imperava na periferia. Rota 66 revela, em forma de série, como isso nasceu, o surgimento do modus operandi da truculência.

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