TEXTO CONCISO

Força de Todo Dia a Mesma Noite está no roteiro: comovente, preciso e didático

Minissérie brasileira da Netflix emociona e esclarece de forma equilibrada
DIVULGAÇÃO/NETFLIX
Pablo Sanábio em Todo Dia a Mesma Noite
Pablo Sanábio em Todo Dia a Mesma Noite

A minissérie brasileira Todo Dia a Mesma Noite (Netflix), que retrata a tragédia acerca do incêndio da boate Kiss ocorrido há dez anos, tem conquistado muitos espectadores pela emoção da história, que é dolorida de ponta a ponta, da calamidade naquele fatídico 27 de janeiro de 2013 até a impunidade dos responsáveis pelas mortes de 242 pessoas. A atração tem no roteiro a principal força, capaz de transmitir esse sentimento de dor e revolta de forma singela, com um texto comovente, preciso e didático.

Todo Dia a Mesma Noite se encaixa naquela lista de séries baseadas em crimes reais cuja história é conhecida de muitos. Por isso, o primeiro episódio foi tão certeiro. Quem começar a ver a minissérie e sabe o que aconteceu sofre o primeiro corte no coração ao ver aqueles jovens felizes em seus respectivos ambientes familiares, interagindo com os pais, irmãos e sobrinhos, pois dali se imagina que trata-se das vítimas em potencial da fatalidade por vir.

Tomando todo o cuidado de fazer uso de expressões locais gaúchas, dando uma ambiência perfeita ao público, o roteiro aponta que os jovens mortos na festa da boate Kiss são comuns, como tantos. Tem quem mora em fazenda, quem estuda, trabalha, os mais rebeldes, os mais comportados… Foi uma ótima introdução.

O fato de Todo Dia a Mesma Noite ser curta, com cinco episódios apenas, contribuiu para outra boa característica do roteiro: precisão. É tudo muito conciso, direto, simples, sem firula ou encheção de linguiça. Os diálogos são peças de um quebra-cabeça que vai ganhando forma com o desenrolar dos episódios, sem deixar nada em branco ou fora do lugar.

Um erro comum de séries brasileiras é o didatismo exagerado, vício emprestado das novelas, de forma consciente ou não. Em um folhetim, quase tudo é narrado. É comum um personagem fazer uma coisa e falar o que está fazendo ao mesmo tempo, ação típica do formato. Já em uma série isso pega mal, ainda mais se usado além da conta. 

Erom Cordeiro na minissérie Todo Dia a Mesma Noite
Erom Cordeiro na minissérie Todo Dia a Mesma Noite

Percebe-se que Todo Dia a Mesma Noite tem um cuidado para não cair nessa armadilha. E quando o didatismo vem, ele é necessário e cirurgicamente executado. No segundo episódio, há dois bons exemplos disso.

O médico Bernardes (Pablo Sanábio), que está no olho do furacão no atendimento às vítimas, da retirada da boate ao tratamento no hospital, revela para dois policiais (e ao público) porque as pessoas morreram por envenenamento, na verdade. Daí vem uma explicação pertinente do motivo disso, sem “palestrinha” fora de hora.

Depois desse detalhamento médico e químico, chega um tema crucial na parte policial e jurídica da narrativa. Nesse ponto, começam a surgir as perguntas (dos personagens e espectadores) sob a punição aos responsáveis. O delegado Portella (Erom Cordeiro) dá sua versão:

“Eu pedi 30 dias de prisão temporária [para as pessoas ligadas à boate Kiss], mas eu só consegui cinco. Não é culpa do promotor, do juiz ou do delegado… É a legislação, que exige requisitos muito específicos.”

São detalhes assim que fazem de Todo Dia a Mesma Noite uma boa série de ser acompanhada, apesar do tema delicado. O cuidado com o que vai ser falado e como é bem perceptível. O resultado final é bastante satisfatório.

A minissérie foi escrita e criada por Gustavo Lipsztein (1 Contra Todos).


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