SOMBRIA E RADIANTE

Crítica: Jenna Ortega faz Wandinha ser uma das melhores personagens do ano

Jovem atriz é precisa na interpretação da fascinante adolescente gótica
REPRODUÇÃO/NETFLIX
Jenna Ortega em cena de Wandinha
Jenna Ortega em cena de Wandinha

A estranha, ou melhor, sombria Wandinha é uma das melhores personagens de 2022 do mundo das séries, sem dúvida. E isso só se concretiza pela atuação preciosa de Jenna Ortega. A jovem de 20 anos, revelada em Jane The Virgin, é razão suficiente para acompanhar Wandinha, série da Netflix baseada nas histórias da Família Addams.

Adoravelmente sarcástica, Wandinha é dona de frases antológicas que lhe definem com exatidão. Ela é uma máquina de reflexões mórbidas e engraçadas ao mesmo tempo. Jenna Ortega incorpora essa magia com maestria, fazendo jus a alguém que tem orgulho de ter nascido em uma sexta-feira 13.

Sempre vestindo roupas escuras (é alérgica a cores), aparência pálida, braços engessados, sem um pingo de emoção no corpo e nunca deixando de ter a cara fechada, Wandinha destila a todo instante verdades de sua filosofia de vida niilista. A construção da personagem gótica foi muito bem desenvolvida.

A filosofia de Wandinha

A base da série é a entrada de Wandinha na escola Nunca Mais, voltada para alunos excluídos, com dons especiais e esquisitos, digamos assim. Isso porque ela foi expulsa novamente de um colégio, dessa vez por atacar valentões que mexeram com o irmão dela. Na verdade, a família de um dos rapazes queria dar queixa de tentativa de homicídio.

Mortícia (Catherine Zeta-Jones), mãe de Wandinha, conversa sobre isso com a filha, dizendo que essa acusação não ficaria bem na ficha da garota. “Seria péssimo”, devolve Wandinha. “Todos saberiam que não fui até o fim.”

Ela é obrigada a encarar sessões com psicólogas e o resultado nem sempre é favorável (para as psicólogas, claro). Uma delas surtou após uma sessão. Para Wandinha, nada menos do que a sensação de dever cumprido.

Wandinha tem um hobby, que é assustar pessoas. Por causa de traumas no passado, ela não chora. E explica o motivo disso para a terapeuta da vez. “Emoções levam a coisas piores. A sentimentos, que resultam em lágrimas. Eu não choro”, diz a adolescente, convicta. 

Ser solitária não é um problema para ela. “Gosto de ser uma ilha”, afirma antes de desenhar o cenário ideal. “Bem-fortificada, cercada por tubarões.” 

Em diálogo com a nova psicóloga, Wandinha dá uma invertida certeira na lábia barata da moça, que aponta: “Suas tendências antissociais podem sem medo de rejeição”. A Addams sombria não deixa barato: “Se você me rejeitasse, eu não me incomodaria.”

A série Wandinha entrega uma protagonista ideal e alinhada ao propósito da narrativa. É difícil imaginar que outra atriz, fora Jenna Ortega, pudesse ser melhor na caracterização da personagem Wandinha. É um trabalho de gente grande, com toda a certeza.

São muitas as boas referências e sacadas geniais da Wandinha de Jenna. É uma fala bem elaborada atrás da outra. Um exemplo disso é quando ela está conversando com a Mãozinha e até abre o coração, por achar que será responsável por algo terrível. “Não o terrível bom, como o Ivan”, diz ela se referindo a Ivan, o Terrível, czar da Rússia conhecido por exalar terror.

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