
São inevitáveis as comparações entre A Casa do Dragão (HBO) e Os Anéis de Poder (Prime Video), embora seja cristalina a diferença entre uma e outra; a primeira é complexa e adulta, a segunda apresenta uma trama simples para todas as idades. E daí surge o aspecto que as separa, tornando o drama filhote de Game of Thrones mais interessante do que a série da franquia O Senhor dos Anéis: identificar quem é vilão e herói.
Desde o primeiro momento, Os Anéis de Poder deixou explícito ao público que a heroína da história é Galadriel (Morfydd Clark), a guerreira elfa que acredita que uma força do mal está de volta para aterrorizar a Terra Média. E o vilão a ser combatido é Sauron, cuja aparência é desconhecida.
Está aí o duelo da série. Galadriel age primeiro juntando provas das ações de Sauron, convencendo assim a todos, humanos e elfos, de que o inimigo está vindo com força e de que é preciso derrotá-lo antes de um grande desastre.
A única teorização em cima disso para o telespectador é tentar adivinhar quem é Sauron, pois ele pode assumir a identidade de alguém, como um disfarce. Mas o embate bem versus mal é claro, modelo clássico de produções, seja do cinema ou da TV, que não entrelaça tramas e nem incentiva o público a escolher o lado certo da batalha. É o método oposto ao anti-heroísmo.
Isso até deixa a história de Os Anéis de Poder mais fácil de ser acompanhada. Basta seguir a jornada da heroína Galadriel, torcer pelo time dela, e admirar todo o visual deslumbrante da série, que é realmente espetacular.

A (boa) complexidade de A Casa do Dragão
Seguindo a linha de Game of Thrones, a série A Casa do Dragão concentra a trama nas relações mais complexas possíveis entre os personagens. O visual conta sim, o mesmo vale para os efeitos especiais e batalhas. Porém, a trama é essencialmente sobre movimentações políticas na base da fofoca, traição, levar vantagem e busca pelo poder.
Isso inevitavelmente torna A Casa do Dragão mais interessante. Quem é o vilão ou vilã da história? É possível apontar a heroína ou o herói? Boa sorte ao tentar encontrar a resposta certa a essas perguntas.
As duas personagens centrais da narrativa, Rhaenyra (Emma D’Arcy) e Alicent (Olivia Cooke), estão em lados opostos do ringue. A escolha de uma bandeira para torcer nessa guerra vem com a bagagem extra de que a opção não é essencialmente boa. Nenhuma das duas têm argumentos 100% limpos para ser uma heroína clássica, por exemplo.
E isso é o que é legal e atraente. Não apenas as duas, mas os personagens que estão ao redor delas, são ultradimensionais. Inexiste uma faceta única e tranquilamente decifrável. O elemento da imprevisibilidade faz parte do jogo. Quem opta pelo time preto (Rhaenyra) ou verde (Alicent) sabe que uma dose de vilania corre nas veias da -suposta- heroína escolhida.

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br