
Vencedora do Globo de Ouro de melhor drama (2023), a série A Casa do Dragão deu o start de uma nova fase, iniciando nesta semana as gravações da terceira temporada. O spin-off de Game of Thrones encara uma turbulência no aspecto criativo, devido a um rompimento sensível entre o showrunner do drama fantasioso, Ryan Condal, e o escritor George R.R. Martin, autor da obra literária que serve de base para A Casa do Dragão.
No ano passado, em uma postagem no seu blog pessoal, Martin detonou a adaptação da HBO, simplesmente dizendo que “está tudo errado” nela. O ponto da discórdia para uns pode parecer inofensivo: na segunda temporada, Condal tirou um filho de Aegon e Helaena; no livro Fogo & Sangue, o casal tem três crianças. Martin discordou veementemente dessa decisão, alertando que a alteração em relação ao material de referência tem potencial de causar um “efeito borboleta” na continuidade da narrativa televisiva.
Condal comentou sobre isso em entrevista recente ao site Entertainment Weekly. Sem rodeios, o showrunner reagiu ao comentário negativo de Martin, confessando que foi “decepcionante” ouvi-lo. “O que eu posso dizer é que sou fã de As Crônicas de Gelo e Fogo [base de Game of Thrones] há quase 25 anos e que trabalhar na série tem sido um dos maiores privilégios da minha vida, não só como escritor, mas como fã de ficção científica e fantasia.”
Durante o desenvolvimento de A Casa do Dragão, Condal e Martin demonstravam entrosamento. O roteirista nunca escondeu ser fã do escritor, algo que ele reforçou no papo com a EW: “George é um monumento, um ícone literário e também um herói para mim, que teve uma influência enorme na minha carreira.”
Na visão de Condal, a ruptura se deu por Martin não compreender que a série da HBO é uma adaptação, sendo assim natural ter uma mudança ou outra ao ser comparada com o livro Fogo & Sangue. São ajustes que, segundo o showrunner, não descaracterizam a essência da história.
“Tenho de dizer que me esforcei para incluir George em cada etapa do processo de adaptação”, informou. “De verdade. Durante anos e anos. E acho que desenvolvemos uma colaboração mútua e frutífera. Mas, em algum momento, ele deixou de reconhecer, de maneira razoável, os desafios práticos que temos.”
“Como showrunner, tenho que equilibrar meu lado produtor e meu lado criativo, pelo bem da equipe, do elenco e da HBO. Esse é o meu trabalho. Resta a mim torcer para que George e eu possamos reencontrar, em algum momento, aquela harmonia que tínhamos antes disso tudo.”
Para não repetir erros cometidos com Game of Thrones, na parte de construção da trama, seria bom a HBO dar mais atenção a George R.R. Martin. Maior série de todos os tempos, GoT sofreu críticas depreciativas após a adaptação seguir seu rumo sem ter mais como fonte a saga literária de Martin.
Então, a série com mais estatuetas ganhas no Emmy em todos os tempos, abusou da liberdade criativa, avançando tramas que o autor ainda havia escrito em livros. O drama da HBO gastou as referências, basicamente, até a quinta temporada. Depois disso, foi imaginação dos roteiristas e produtores da atração, não a visão de Martin.
Coincidência ou não, é da sexta temporada em diante que os críticos mais ferozes passaram a massacrar Game of Thrones, apontando perda de qualidade, culminando no final tido como infame. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br