SUJEIRA

A série do Prime Video que, com bom humor, expõe podres da Copa do Mundo

Jogo da Corrupção é uma comédia dramática esclarecedora, divertida e imperdível
DIVULGAÇÃO/PRIME VIDEO
Pôster de Jogo da Corrupção; o outro lado da Copa do Mundo
Pôster de Jogo da Corrupção; o outro lado da Copa do Mundo

Quer entender, de fato, como funciona o sistema por trás de uma Copa do Mundo de futebol? Assista à série Jogo da Corrupção, disponível no Prime Video, que entrega a você um dossiê completo sobre os podres do maior evento esportivo do planeta. Melhor do que qualquer documentário ou livro, a comédia faz esse exposed com muito bom humor e ironia bastante afiada.

Antes do início do torneio, marcado para 11 de junho, vale mergulhar nos oito episódios de Jogo da Corrupção. Em meio à celebração coletiva, às disputas em campo e ao fascínio do espetáculo futebolístico, convém não perder de vista o que rola nos bastidores da competição: a atuação da Fifa e seus métodos obscuros para viabilizar um certame dessa magnitude.

A trama revela a transformação da Fifa, principal entidade do futebol: de uma instituição burocrática e engessada a um império bilionário, controlador do esporte mais popular da Terra, uma engrenagem especializada em produzir e desviar fortunas.

Jogo da Corrupção corresponde à segunda temporada de El Presidente, série indicada ao Emmy Internacional que revelou os esquemas internos do futebol sul-americano a partir da perspectiva de Sergio Jadue (vivido pelo brilhante Andrés Parra), dirigente chileno envolvido em todo tipo de falcatrua na região.

Esbanjando humor ácido em uma narração memorável, Sergio Jadue conduz Jogo da Corrupção. A história aposta numa metalinguagem na qual a streaming da Amazon “contrata” o cartola para contar como o brasileiro João Havelange ascendeu dentro da Fifa e mudou os rumos do futebol para sempre.

Há momentos tão impactantes que fica difícil não se perguntar se os acontecimentos realmente ocorreram daquela maneira, tamanha a falta de pudor retratada. O próprio Jadue ironiza esses aparentes excessos: “Juro que não tenho tanta imaginação. Se aconteceu exatamente assim? Foi mais ou menos assim, mas aconteceu.”

A origem da podridão na Fifa

Jogo da Corrupção deixa claro que a corrupção nunca foi um desvio ocasional da Fifa, ela faz parte da essência da instituição. Muito antes da chegada de João Havelange e seus aliados, a entidade já estava distante de qualquer ideal de transparência.

Com Havelange, interpretado pelo argentino Albano Jerónimo, a lógica do “rouba, mas faz” e do “os fins justificam os meios” foi levada ao extremo. Seu objetivo era inequívoco: transformar a Copa do Mundo em um gigantesco produto publicitário, um espetáculo midiático sem precedentes, independentemente do custo. E ele alcançou esse propósito.

Tudo começa na década de 1970. À frente da CBD — atual CBF (Confederação Brasileira de Futebol) — Havelange comandou a delegação responsável pelo tricampeonato mundial do Brasil. Ex-nadador olímpico, ele passou então a ambicionar voos maiores, mirando o comando da Fifa.

Havia, porém, um obstáculo relevante. A estrutura de poder da Fifa restringia a influência das chamadas “colônias” nas decisões sobre a administração do futebol. Na prática, só europeus ocupavam os espaços centrais de poder. Havelange demonstrou disposição para romper esse ciclo.

A virada veio em 1974. Com apoio fundamental de países africanos, ele venceu por margem apertada a eleição presidencial da Fifa. O carioca permaneceu no posto até 1998, levando o futebol, e sobretudo a Copa do Mundo, a um novo nível de projeção.

Jogo da Corrupção evidencia, no entanto, que esse processo foi construído com negociações suspeitas, acordos ilegais, flexibilização ética e corrupção explícita.

Enquanto torcedores ao redor do mundo enxergam apenas a festa nas arquibancadas, o entusiasmo dos países-sede e o brilho dos jogadores em campo, os bastidores operam sob uma lógica muito mais sombria. E essa realidade não tem de ser escondida.

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