
Criada como exercício de imaginação política, a série belga The Best Immigrant acabou se aproximando de uma realidade incômoda. A produção fictícia, apresentada na edição deste ano do festival internacional de televisão Series Mania (Lille, França), parte de um cenário distópico: em um futuro próximo, um partido de extrema direita chega ao poder na Bélgica e aprova uma lei obrigando residentes estrangeiros a retornar ao país de origem.
A nova ordem rapidamente se infiltra no entretenimento. Um canal local lança um programa de competição no qual imigrantes disputam a permanência no território belga. O vencedor recebe autorização de residência; derrotados enfrentam deportação violenta. O espetáculo transforma a sobrevivência em entretenimento.
Em 2018, os roteiristas Raoul Groothuizen e Christina Poppe tiveram a ideia de The Best Immigrant quando observaram a escalada de discursos racistas no contexto político da Bélgica. A dupla imaginou um regime autoritário no comando do país e se perguntou até onde cidadãos e meios de comunicação aceitariam adaptar-se ao novo poder. Naquele momento, campos de detenção para estrangeiros ou prisões arbitrárias pareciam material típico de ficção sombria.
Durante as gravações, realizadas no ano passado, o projeto passou a ecoar acontecimentos do noticiário. Em um dos primeiros episódios, policiais invadem uma escola e arrastam professores para a rua, sequência semelhante a imagens recentes registradas nos Estados Unidos.
Até mesmo a premissa mais absurda da narrativa, imigrantes competindo em um reality show pela cidadania, encontrou paralelo fora das telas. No ano passado, o produtor Rob Worsoff apresentou para o Departamento de Segurança Interna dos EUA um formato televisivo quase nos mesmo moldes (não é fake news, ele propôs isso mesmo, em entrevista à CNN)
The Best Immigrant já foi exibida na Bélgica e mira interessados ao redor do mundo (a Sony é a responsável pela distribuição internacional do projeto). Dentro da nação, a reação foi imediata, com líderes da extrema direita criticando duramente a produção, gesto considerado irônico pela equipe criativa da série. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



