
Mais novo drama britânico da Netflix, lançado nesta quinta-feira (7), Personas narra uma história real ambientada na década de 1990, quando o órgão responsável pelo controle alfandegário estava perdendo a batalha contra o tráfico de drogas nas fronteiras britânicas.
A solução foi extraordinária. Em uma operação ultrassecreta, uma pequena equipe de funcionários da alfândega foi trabalhar disfarçada. A missão era se infiltrar nas quadrilhas de traficantes mais perigosas da Grã-Bretanha.
Mas eles não eram espiões treinados. Eram apenas homens e mulheres comuns, que saíram de suas vidas no Reino Unido, receberam um treinamento básico e a tarefa de criar novas identidades no submundo do crime.
Os fatos por trás da série Personas
No começo dos anos 1990, o Reino Unido flertava com uma recessão econômica ao mesmo tempo em que enfrentava o avanço de uma epidemia de heroína. Diante do cenário alarmante, a autoridade responsável pelo controle de fronteiras (Her Majesty’s Customs) recebeu a incumbência de conter a entrada da droga no território britânico. A estratégia adotada apostou na infiltração direta nas quadrilhas envolvidas no contrabando, convertendo a missão em prioridade nacional.
A mobilização partiu dos mais altos escalões do poder. A então primeira-ministra Margaret Thatcher demonstrava interesse pessoal no combate ao narcotráfico, o que intensificou a pressão sobre órgãos governamentais e a própria alfândega. A resposta institucional incluiu a abertura de recrutamento interno para voluntários dispostos a assumir identidades falsas e penetrar no universo do crime organizado, tarefa marcada por risco constante e recursos escassos.
Sem estrutura robusta, os agentes recorreram à improvisação. Veículos apreendidos e joias confiscadas tornaram-se ferramentas operacionais, em uma dinâmica quase artesanal para enfrentar um problema de escala internacional.
“[Essas personas] foram além do esperado e fizeram enormes sacrifícios, movidos pela causa legítima de impedir a entrada de heroína no país”, comentou Neil Forsyth, roteirista e criador do drama, em entrevista à Netflix.
Ele baseou o desenvolvimento desse projeto em extensa pesquisa. Foram conduzidas entrevistas com participantes reais das operações, alguns dispostos a falar abertamente, outros sob reserva, além de contar com o trabalho investigativo do pesquisador Adam Fenn, dedicado por meses à análise de documentos judiciais e arquivos jornalísticos.
“Quanto mais eu ouvia, mais extraordinária a história se revelava”, contou. “Para um roteirista, o grande fascínio está na complexidade do relato, na variedade de universos e personagens inesperados que ele envolve.”
A adaptação para a televisão exigiu escolhas narrativas. Diante da multiplicidade de eventos e personagens, a equipe optou por condensar acontecimentos e criar figuras compostas, capazes de sintetizar experiências reais sem comprometer a essência dos fatos.
O perfil dos agentes recrutados ajuda a explicar a adesão ao projeto. Em geral, homens e mulheres na faixa dos 20 e 30 anos, inseridos em carreiras estáveis, porém insatisfeitos com a própria trajetória. A possibilidade de assumir uma nova identidade, mais intensa e significativa, funcionava como um chamado irresistível, ainda que implicasse viver sob ameaça permanente. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



