
Apesar de ambientado em um hospital fictício de Nova York, o drama médico New Amsterdam tem raízes profundas em um hospital real. Além disso, o protagonista vivido por Ryan Eggold é inspirado em um doutor de verdade, cujas histórias ajudaram a moldar a série que passa a estar disponível na Netflix a partir de segunda-feira (1º).
New Amsterdam é uma produção original da rede americana NBC exibida de 2018 a 2023. São cinco temporadas, no total (89 episódios).
Entre tantas séries do gênero, esta se destaca por ser uma das poucas que mostram o lado mais verídico da saúde pública americana, que não é gratuita. Essa abordagem mais crua e próxima da realidade rendeu elogios, incluindo aprovação da OMS, a Organização Mundial da Saúde.
O hospital retratado na produção, o New Amsterdam Hospital, tem como base o Bellevue Hospital, tradicional centro médico de Nova York considerado o mais antigo dos Estados Unidos ainda em atividade. A instituição remonta a 1736, quando uma enfermaria de apenas seis leitos funcionava no segundo andar da antiga Casa dos Pobres da cidade, décadas antes da independência do país.
A ligação entre ficção e realidade vai além da inspiração: episódios da série chegaram a ser gravados dentro do próprio Bellevue.
O personagem Dr. Max Goodwin (Eggold) nasceu da experiência profissional de Eric Manheimer, médico responsável pela direção clínica do Bellevue durante 15 anos (1997-2012). A base narrativa surgiu do livro Twelve Patients: Life and Death at Bellevue Hospital (12 Pacientes: Vida e Morte no Bellevue Hospital, em tradução direta), obra construída a partir de anotações acumuladas por Manheimer ao longo da carreira.
Em New Amsterdam, Goodwin se torna o diretor do hospital e assume a missão de reformar toda a estrutura negligenciada, atacando a burocracia com o objetivo de melhor atender aos pacientes.
As semelhanças entre criador e personagem não param na função administrativa. Assim como Max enfrenta um câncer de garganta nas primeiras temporadas da série, Manheimer também travou uma batalha contra a doença.
A trajetória do doutor Eric Manheimer
Antes de assumir o comando do Bellevue, Manheimer passou pelo Kings County Hospital, no Brooklyn. Durante o célebre apagão de 1977 em Nova York, trabalhou tratando ferimentos de saqueadores cortados por estilhaços de vitrines destruídas enquanto roubavam televisores.
Ao recordar os anos na unidade, o médico descreve um cotidiano marcado por casos raros e crises de grande escala. Tuberculose incomum, quadros complexos de HIV, episódios de violência urbana e grandes tragédias integravam a rotina do Bellevue.
Após os atentados de 11 de Setembro, o hospital esteve entre os principais pontos de resposta da cidade. Qualquer emergência de grande impacto em Nova York acabava convergindo para ali.
Embora reconheça o tom dramatizado da adaptação televisiva, ele vê no personagem Max Goodwin um reflexo de seu próprio impulso reformista. Isso por ter adotado uma postura igualmente ousada assim que passou a comandar o Bellevue.
Familiarizado com a rede pública de saúde nova-iorquina graças à passagem pelo Kings County e pelo contato que tinha com colegas espalhados por hospitais da cidade, o doutor sabia exatamente o terreno onde estava pisando. Também tinha consciência do custo dessa escolha: o Bellevue possuía uma cultura institucional própria, e enfrentar esse ambiente significaria apanhar bastante durante o processo. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



