
Amada e odiada, a série Euphoria (HBO) chegou ao fim no último domingo (31). Lançado em 2019, o drama terminou com a morte de quatro personagens de destaque. Uma das despedidas, contudo, chamou mais a atenção pela dor e pela emoção. O criador da narrativa, Sam Levinson, tem uma justificativa para isso.
[Atenção: spoilers a seguir]
Rue (Zendaya) passou toda a terceira temporada correndo riscos. Naturalmente, antes do capítulo decisivo, plataformas de apostas apontavam que a jovem não iria escapar viva de mais uma aventura desafiando a morte. Não deu outra: aos 45 minutos de um episódio com mais de uma hora e meia de duração, Rue morreu em decorrência de uma overdose acidental após ingerir comprimidos de Percocet (analgésico) adulterados com fentanil.
Para Levinson, o desfecho representa a conclusão mais coerente para uma narrativa centrada no vício, na perda e em seus desdobramentos emocionais. “A verdade é que pessoas como Rue não sobrevivem”, comentou, em entrevista ao site The Hollywood Reporter.
“Acho que, no fim das contas, eu queria relatar uma história honesta sobre o vício. Também queria abordar o luto e a turbulência emocional que ele pode provocar.”
Durante uma sequência onírica, construída no momento da overdose, surge um encontro carregado de emoção entre Rue e Fezco, cena composta com imagens inéditas de Angus Cloud, ator de Euphoria que morreu em 2023, aos 25 anos, também em decorrência de uma overdose acidental.
“Eu queria contar essa história por Angus e por pessoas que não tiveram uma segunda chance”, afirmou Levinson, emocionado ao relembrar sua própria trajetória de problemas com o uso de substâncias.
Manifesto contra as drogas
Apesar de tropeços ao longo da caminhada, Euphoria cruzou a linha de chegada entregando um desabafo marcante. Toda a problemática sobre o uso, o vício e o tráfico de drogas foi resumida no discurso de Ali (Colman Domingo) em um encontro de viciados, no qual ele fala algumas verdades acerca desse assunto delicado.
Abalado, Ali relata uma mudança profunda de perspectiva. Antigo defensor da empatia irrestrita, admite crescente desconforto diante da ideia de estender a mesma compreensão reservada ao dependente e também ao traficante.
Depois do que aconteceu com Rue, ele voltou a beber pela primeira vez em muito tempo. E denunciou a corrupção de um sistema que facilita a fabricação, distribuição e comercialização de drogas como o fentanil, cuja dependência causa mortes e mais mortes nos Estados Unidos em proporções epidêmicas.
A conclusão, amarga, resume seu desencanto: afinal, invariavelmente, alguém contribui para tornar o mundo melhor ou pior. Exausto, ele abandona a crença de cumprir a primeira missão por meio de reuniões e tentativas de salvar jovens viciados incapazes de salvar a si próprios. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



