
Nova série brasileira da Netflix, Emergência Radioativa retrata o caso real do maior desastre radiológico da história fora de uma usina nuclear. O protagonismo é de Johnny Massaro na pele de Márcio, personagem inspirado no físico Walter Mendes Ferreira, aquele que descobriu a verdade sobre o acidente com césio-137 e foi fundamental em todas as etapas da crise.
Em setembro de 1987, Goiânia entrou para a história mundial por um motivo trágico. E no centro esteve um homem pouco conhecido do grande público (até agora), porém decisivo para interromper a escalada da contaminação. Walter não só identificou a presença do material radioativo, mas foi certeiro ao alertar as autoridades federais prontamente.
Recapitulando o fato: dois catadores retiraram de uma clínica de radioterapia desativada um equipamento contendo uma cápsula com césio‑137, isótopo altamente radioativo usado em tratamentos médicos. A peça acabou desmontada e vendida como sucata, espalhando um pó azul brilhante capaz de despertar curiosidade entre moradores e frequentadores de um ferro-velho. Sem qualquer proteção, diversas pessoas manipularam a substância.
Os primeiros sinais de alerta surgiram dias depois. Moradores começaram a apresentar sintomas incomuns: náuseas, queimaduras e mal-estar persistente. Médicos suspeitaram de contaminação por radiação, hipótese difícil de comprovar sem instrumentos adequados. Foi nesse momento que Walter Mendes Ferreira entrou em cena.
Na época, o físico estava em Goiânia por circunstâncias pessoais. Chamado para examinar um objeto metálico suspeito que havia sido levado à vigilância sanitária, ele recorreu a detectores de radiação para investigar a origem do problema. O resultado não deixou dúvidas: os aparelhos registraram níveis alarmantes de radioatividade. Walter confirmou tratar-se de um acidente radiológico e imediatamente acionou a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), responsável pela resposta técnica à emergência.
O alerta desencadeou uma mobilização sem precedentes no País. Especialistas em proteção radiológica chegaram à capital de Goiás para localizar os focos de contaminação, remover materiais perigosos e examinar a população exposta. Ao longo da operação, mais de 110 mil pessoas passaram por triagem médica, enquanto equipes especializadas recolheram toneladas de resíduos contaminados para armazenamento seguro.
O saldo humano foi dramático. Quatro mortes foram oficialmente atribuídas à exposição aguda à radiação, além de centenas de vítimas com diferentes níveis de exposição. O episódio recebeu classificação nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, categoria reservada a eventos com consequências de grande alcance.
Walter permaneceu na linha de frente durante os primeiros meses da crise, integrando as equipes responsáveis por identificar vítimas, mapear áreas atingidas e orientar as medidas de descontaminação. Posteriormente, passou a atuar na própria CNEN, onde assumiu funções técnicas e administrativas relacionadas à segurança nuclear no País.
Décadas depois, seu nome segue associado ao episódio marcante na história científica e sanitária do Brasil. Em cerimônias e homenagens dedicadas às vítimas do desastre, autoridades lembram o papel desempenhado pelo físico no momento crucial em que a ameaça ainda não havia sido compreendida. A rápida identificação do risco permitiu mobilizar especialistas e conter uma tragédia potencialmente ainda maior. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



