
Maior centro de produção de filmes e séries do mundo, Hollywood vive uma crise silenciosa. Desde 2020, a fila de desempregados só aumenta devido a uma sequência de fatores negativos que afetou diretamente a indústria de entretenimento americana: pandemia, corte de gastos dos grandes estúdios e greve dupla (de atores e roteiristas).
O pior foi evitado. Na semana passada, operários que trabalham atrás das câmeras, representados pelo sindicato Iatse, entraram em acordo com a entidade patronal AMPTP, que advoga pelos maiores estúdios hollywoodianos. Um contrato válido para os próximos três anos foi acertado, impedindo uma nova paralisação, que seria um verdadeiro desastre.
É importante ressaltar que qualquer crise em Hollywood afeta toda a economia americana. A indústria do entretenimento é tratada como prioridade, tal qual a agropecuária e a indústria automobilística. Hollywood precisa estar bem, triunfando, para não afetar toda a estrutura financeira dos Estados Unidos.
No papel, os três contratos firmados pelos sindicatos WGA (roteiristas), SAG, (atores) e Iatse foram benéficos para os trabalhadores. Mas, na prática, eles estão sofrendo na fila do desemprego, precisando se virar nos 30 para pagar as contas, sobreviver e não desistir da carreira hollywoodiana.
Entender o que acontece nesse lado é muito importante. Estão ali operadores de câmera, maquiadores, figurinistas, roteiristas, iluminadores, eletricistas, carpinteiros… Enfim, simplesmente todo mundo que faz a sua série preferida acontecer; e que há algum tempo, infelizmente, caíram no esquecimento por causa do botão “próximo episódio” disponibilizado pelos streamings, função que impede o público de ver o nome desses trabalhadores que ralaram para fazer tudo aquilo acontecer.

Vida atrás das câmeras
O impacto é geral, em todas as profissões, afetando todas as idades. Em entrevista para o jornal Los Angeles Times, o roteirista Ted Sullivan, com 14 anos de experiência em Hollywood, está sem trabalho há quase um ano.
Já Keith Dunkerley, operador de câmera e diretor de fotografia há mais de duas décadas em Hollywood, trabalhou apenas 18 dias em todo o primeiro semestre de 2024.
A queda na oferta de empregos atinge em cheio o orçamento de cada operário. E não apenas nas questões básicas, como alimentação e moradia. Muitos correm o risco de perder o plano de saúde, algo fundamental em um país onde a saúde pública inexiste, onde a pessoa precisa pagar ambulância, agulha, remédio e tudo mais caso venha a sofrer o menor dos acidentes na rua e for socorrido pelo resgate.
Nesse ramo, a cobertura do plano de saúde está diretamente ligada ao número de horas de trabalho. Em um período de seis meses, o operário de Hollywood precisa trabalhar pelo menos 400 horas para não perder o plano de saúde.
Tem gente que nem sequer pensa nisso, pois o modo de sobrevivência foi ativado. Muitos mudaram de profissão ou estão nesse caminho, fazendo cursos para ganhar o pão em outra indústria. Quem mantém o sonho hollywoodiano vivo engata um bico atrás do outro para se sustentar, valendo desde passear com cachorros até virar um faz-tudo.
O futuro de Hollywood? Nebuloso, para dizer o mínimo. Em todos os cantos, de streaming a TV aberta, o número de séries caiu. A rede CW, que tradicionalmente serviu como porta de entrada para jovens de diversas profissões, mudou de foco: cancelou séries e encomendou quase nada.
E na guerra fiscal do entretenimento, Califórnia, onde Hollywood está situada, perde para a concorrência, como Nova York e Atlanta (nos EUA), Vancouver e Toronto (CAN). Hollywood está se esvaziando porque os incentivos fiscais deixam a desejar em comparação a outros polos, levando estúdios a procurar a região mais lucrativa.

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br