
Com protagonistas renomados, a badalada minissérie Dele & Dela estreou na Netflix nesta quinta-feira (8) com uma classificação indicativa +18, sugerindo que a atração é proibida para menores de idade. Mas, afinal, o que a trama mostra de tão proibitivo assim? Entenda o que está por trás desse carimbo e conheça detalhes da história.
Antes de qualquer coisa, vale registrar que Dele & Dela é uma série boa, sim. A premissa por si só é atraente. No calor abafado de Atlanta, Anna (Tessa Thompson) vive reclusa, afastada dos amigos e da carreira como âncora de telejornal. Ao saber de um assassinato em Dahlonega, a cidade pacata em que cresceu, ela se revigora e mergulha no caso em busca de respostas.
Desconfiado do interesse de Anna, o policial Jack Harper (Jon Bernthal) a coloca na mira de suas investigações. Toda história tem dois lados, portanto, há alguém mentindo.
À primeira vista, Dele & Dela parece seguir o caminho conhecido dos thrillers policiais: assassinatos brutais, segredos enterrados e versões conflitantes dos fatos. Bastam, porém, poucos episódios para ficar claro que a produção não se acomoda em terreno previsível; ela faz justamente dessa instabilidade seu maior trunfo.
O que se desenha, então, é um jogo psicológico sofisticado, sustentado por figuras pouco confiáveis e por uma narrativa que se infiltra lentamente na mente do espectador. É um retrato minucioso de vingança, ressentimento e fúria feminina, desmontando certezas e reorganizando percepções a cada novo avanço. Nada permanece estável; tudo pode ser reavaliado.
Com apenas seis episódios, a minissérie consegue condensar passado e presente de seus personagens sem atropelos, mantendo tensão constante e atenção aos detalhes. Ainda assim, o maior mérito está em subverter expectativas. O suspense nunca é exatamente aquilo que aparenta ser.
Classificação indicativa +18 de Dele & Dela
O assassinato que move a narrativa é tratado com crueldade (o corpo desfalecido é mostrado nu). As cenas da investigação exibem imagens explícitas de violência, sangue e ferimentos, além de flashbacks perturbadores ligados aos últimos momentos da vítima. Interrogatórios e confrontos são marcados por um clima opressivo, em que a ameaça, muitas vezes, se manifesta mais nas entrelinhas do que em gestos diretos.
A linguagem também reflete esse universo áspero. Os diálogos recorrem com frequência a palavrões e expressões agressivas, sobretudo nos momentos de maior tensão emocional. O tom cru não é gratuito: serve para expor raiva, medo e frustração, além de reforçar o desgaste psicológico dos personagens. Há referências sexuais e situações adultas, tratadas sem romantização.
Ao longo dos episódios, emergem temas densos como traumas não elaborados, relações conjugais deterioradas, infidelidade, alcoolismo e instabilidade mental. A série explora ainda as consequências emocionais do crime violento, bem como questões de obsessão, culpa e desequilíbrio de poder nas relações pessoais. O resultado é um suspense de forte carga psicológica, alinhado a produções voltadas a um público adulto.
Assim, Dele & Dela exige maturidade do público. Adolescentes mais velhos (16-17) podem compreender a complexidade dos conflitos, desde que acompanhados de orientação, especialmente diante de temas como traição e os aspectos mais sombrios da vida afetiva. Para o público adulto, trata-se de uma obra que desafia, provoca e permanece ecoando muito depois do último capítulo. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



