FÔLEGO RENOVADO

Crítica: Você revigora ao rir de si mesmo e brincar com a fórmula ‘quem matou’

Para não cair na mesmice, drama popular da Netflix acertadamente muda de estilo
REPRODUÇÃO/NETFLIX
Penn Badgley na quarta temporada de Você
Penn Badgley na quarta temporada de Você

No fundo, a série Você é bem humorada, por mais que a base da trama seja um serial killer que persegue mulheres. Na temporada passada, a terceira, o drama da Netflix quase mudou completamente de característica ao investir em uma pegada de comédia romântica de fazer inveja a Os Normais. Agora, a vez é rir de si mesmo ao colocar o personagem central no meio da fórmula “quem matou”. Ele próprio lamenta essa guinada: “Merda, estou em um quem matou, o mais baixo estilo literário.”

Você fez exatamente o que precisava, provando ser verdadeira a visão da cocriadora Sera Gamble de que psicótico Joe (Penn Badgley) pode ser explorado de várias maneiras. A narrativa na quarta temporada sai do ciclo no qual colocava o protagonista perseguindo (e matando) parceiras. A boa carta na manga jogada na mesa mudou a dinâmica: Joe passa a ser alvo de perseguição.

Isso deixa a série muito mais interessante, truque necessário para não desembocar no mais do mesmo. Além dessa condução do stalker ser o stalkeado, Você adota a infalível fórmula “quem matou” com Joe na pele da pessoa responsável em descobrir quem é o culpado de várias mortes em série. Esse foi outro acerto da equipe criativa da atração.

Você e o bom uso do ‘quem matou’

No começo da quarta temporada, o público é levado a crer que o modelo dos anos anteriores irá se repetir. Joe vai até à Europa, carimbando o passaporte em Paris e Londres, atrás de Marienne (Tati Gabrielle, de Caleidoscópio), que segundo ele é o grande amor da vida.

Lá no Velho Continente, os planos de Joe se frustram e o fim da linha está próximo. A saída é aceitar virar uma nova pessoa, não por causa de um processo de purificação de pecados, nada disso. O escape é assumir a identidade de um tal de Jonathan Moore, professor de inglês em uma universidade britânica.

Na pele de Jonathan, Joe é atraído a um círculo de ricos e privilegiados ingleses que vivem em uma bolha superficial, com vidas supérfluas e destacadas da sociedade. Após uma festa de arromba, no qual tomou todas e mais algumas (até absinto), Joe se depara com o corpo de um colega professor, que ele odiava, estirado na mesa de casa, morto com uma faca cravada no peito. Quem o matou? Foi o próprio Joe ou outra pessoa?

Você mergulha fundo nessa investigação de Joe, tornando a experiência de assistir à série bem prazerosa. Entra em cena tudo o que se tem direito em uma trama “quem matou”: pistas cifradas, cinismo por toda a parte e, como percebe Joe: “Um círculo de suspeitos privilegiados, uma armação e [lembranças] de um romance policial britânico.”

Os mistérios sobre a morte do tal professor levam Joe a um martírio: “Lá vou eu estudar o meu gênero menos favorito”. O desprezo do personagem só torna tudo mais intrigante: “Esses caça-palavras para adultos. Ache pistas, ganhe o jogo… Isso não é arte.”

Claro, pode não ser arte, mas chama a atenção do público, sem dúvida. Por isso que a quarta temporada de Você começou bem, com os cinco primeiros episódios. Pois, de fato, a fórmula “quem matou” é irresistível. Os novos personagens introduzidos na história foram bem criados, podendo ser tanto o assassino quanto a próxima vítima. O telespectador fica grudado na tela seguindo Joe na busca da resolução desse caso.

Joe (ou melhor, Jonathan) desabafa para Nadia (Amy-Leigh Hickman), uma de suas melhores alunas: “Não acha que o gênero [romance policial] segue sempre a mesma fórmula?”. Ela rebate, com precisão: “[Sim], é uma fórmula, mas ela é divertida. Ela o prende, é rica em comentário social paralelo ao mistério. É entretenimento”.


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