FORA DO PADRÃO

Critica: A Diplomata prova que Netflix pode fazer série inteligente

Com Keri Russell, o drama político foge da pasteurização praticada pela plataforma
DIVULGAÇÃO/NETFLIX
Keri Russell na série A Diplomata
Keri Russell na série A Diplomata

A Netflix abraça a linha de produção pasteurizada de séries porque é um modelo que funciona para os negócios. Vez ou outra surge uma atração criada longe dessa forma. É o caso de A Diplomata, drama político que prova que a gigante do streaming pode fazer uma série inteligente, de alto nível e gabaritada.

Toda a estrutura de A Diplomata se sustenta na base do diálogo. Não tem pirotecnias, truques, efeitos… Nada disso. E as conversas entre os personagens caminham precisamente em uma trilha ideal, sem ser didática ao extremo e muito menos cifrada, com construções difíceis de entender.

O telespectador é convidado a desvendar o que está por trás das motivações dos personagens ali apresentados. E, do começo ao fim, dá para fisgar dicas não apenas no que é dito da boca para fora, mas sim prestando atenção em gestos, olhares, piscadas de olho, comentários indiretos…

Um ponto positivo da narrativa é abrir pouco espaço para histórias paralelas, de personagens coadjuvantes. Assim, os episódios seguem uma fluidez suave e atraente ao se dedicar por completo à trama principal. E caso haja algum desvio de rota, sempre vai ter algo mencionado que influencia o núcleo da série.

Keri Russell com Ato Essandoh em A Diplomata
Keri Russell com Ato Essandoh em A Diplomata

A (boa) trama de A Diplomata

O mundo da diplomacia é escancarado na nova série da Netflix. O protagonismo é de Keri Russell (The Americans), que interpreta Kate Wyler. Perita nesse universo, mas nos bastidores, ela é jogada para o centro das atenções após um porta-aviões britânico ser alvo de um ataque no Oriente Médio, causando várias mortes e iniciando uma tensão bélica entre o Reino Unido, Estados Unidos e Irã, principal suspeito de orquestrar o tal ataque.

Com larga e importante experiência em gerenciar zonas de crise internacionais, Kate estava prestes a ir trabalhar em Cabul (Afeganistão). Os planos mudaram após ela ser convidada para assumir o posto de embaixadora americana no Reino Unido, com o objetivo (na fachada) de resolver o impasse criado.

É na fachada porque por trás há uma outra motivação: Kate é o nome mais cotado para ser a nova vice-oresidente americana. Uma das razões disso é o fato de ela não ser uma política tradicional, daquelas que anseiam pelos holofotes. Ela fala a real sem pensar em fazer média, o tipo de atitude que iria ajudar o andamento do governo dos EUA.

Acontece que Kate tem zero aptidões de uma diplomata/política. Não gosta de aparecer e nem de vestir roupas chiques ou comparecer a eventos apenas para manter o status quo. Ela gosta de agir e resolver as coisas, essa é a sua maior motivação no trabalho.

Em meio a isso tudo, a embaixadora tem de lidar com um casamento frágil, a ponto de se despedaçar. Ela é casada com Hal (Rufus Sewell, de O Homem do Castelo Alto), esse sim um diplomata nato, que conhece e está acostumado com todas as nuances desse mundo.

Kate tem de fugir da sombra do marido ao mesmo tempo que precisa resolver o sim ou não do iminente divórcio. O entrave é que essa escolha crucial para sua vida pessoal tem repercussão direta na carreira profissional.

A Diplomata amarra muito bem todas as tramas que apresenta ao público logo no primeiro (e ótimo) episódio, introdução feita na medida do que está por vir. O roteiro é o fundamento precioso do drama político. Daí vale ressaltar a importância da experiência.

A criação de A Diplomata é de Debora Cahn, que começou a carreira de roteirista no drama político The West Wing. A construção de falas rápidas e precisas foi ainda mais aprimorada na passagem dela por Grey’s Anatomy, de 2006 a 2013. Seu trabalho anterior, a cereja no bolo, foi em Homeland. As influências dessas três séries estão em A Diplomata, culminando em um produto final da mais pura qualidade.


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