
Sexy e picante para muitos, fake para alguns. As cenas de sexo gay na série Rivalidade Ardente (HBO Max) estão no centro de várias conversas, até pelo fato de elas formarem a espinha dorsal da narrativa romântica, pois transar é algo feito pelo casal protagonista mais do que conversar sobre o relacionamento ou futilidades.
Acontece que gravar cenas de sexo é muito, mas muito complexo mesmo. O resultado entregue ao público com aparência de impulso e espontaneidade costuma ser resultado de ensaios minuciosos, acordos prévios e uma engrenagem cuidadosamente articulada. Por isso, é fundamental ter um coordenador de intimidade no set, para assegurar o consentimento dessa ação e vetar simulações desconfortáveis.
Quem esteve por trás desse processo foi Chala Hunter, atriz responsável por cuidar de cada cena íntima de Rivalidade Ardente. O trabalho foi grande, porque Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie) movem o namoro/pegação menos pelo diálogo e mais pelo contato físico. Como observou o criador Jacob Tierney, trata-se de personagens que se comunicam essencialmente pelo desejo, estabelecendo um vínculo oscilante entre o silêncio e a paixão.
Em vez de apostar na improvisação, Chala trabalhou com planejamento rigoroso. Cada sequência passou por conversas detalhadas, definição de limites e acordos claros entre elenco e direção. O objetivo foi duplo: proteger os atores e assegurar que o resultado final preservasse a verdade dramática pretendida pela narrativa.
“Abordo cada cena com o mesmo objetivo: garantir que todos tenham dado seu consentimento e que estejamos alinhados quanto à ação que vai acontecer”, diz a coordenadora, em entrevista ao site The Hollywood Reporter.
Enquanto muitos aplaudem a “quentura” das cenas, outros criticam. Os comentários negativos giram em torno da suposta falta de veracidade nos atos, pois não seria assim que homens gays transam; atores homossexuais expressaram esse sentimento, por exemplo. Chala encara isso numa boa:
“Cada pessoa tem sua própria experiência do que é ou não é autêntico”, afirmou, ressaltando que não existe uma única medida universal para avaliar as cenas de sexo como certas ou erradas. “A intimidade é uma experiência muito individual e específica.”
Ela também comentou a respeito da condução desses momentos de entregas de um casal homossexual, equilibrando coisas como contexto e status de cada personagem em determinada parte da narrativa.
“Pensei nisso o tempo todo, refletindo sobre como as identidades desses personagens e suas respectivas trajetórias de vida influenciam algumas das ações [físicas] que estamos retratando, mas também sobre como isso pode afetar a vulnerabilidade ou a ausência dela.”
“Ainda assim, procuro não fazer suposições, seja ao lidar com uma história heterossexual, uma história queer ou uma narrativa que envolva pessoas em qualquer ponto do espectro de gênero ou com qualquer orientação sexual. Tento evitar pressupostos, realizar o máximo de pesquisa possível e, então, deixar genuinamente que o ator conduza o processo, respondendo a partir dessa relação.”
A primeira temporada de Rivalidade Ardente está disponível na HBO Max (seis episódios, no total). O drama foi renovado para a segunda leva de episódios. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



