TÚNEL DO TEMPO

Análise de Avenida Paulista: um olhar sobre a série da Globo 41 anos depois

Drama de 1982 abre as cortinas do mundo financeiro e da alta sociedade paulistana
REPRODUÇÃO/GLOBO
Antonio Fagundes e o skyline de São Paulo em Avenida Paulista
Antonio Fagundes e o skyline de São Paulo em Avenida Paulista

Quando a minissérie Avenida Paulista estreou na Globo, em 10 de maio de 1982, eu não era nascido. Nunca tinha visto o drama brasileiro sobre o mundo das finanças e da alta sociedade, uma relíquia da TV brasileira, até agora. O streaming Globoplay, em seu projeto de resgate de produções antigas da rede Globo, lançou Avenida Paulista no final de outubro. Como foi a experiência de acompanhar a série, pela primeira vez, 41 anos depois?

Tomo a liberdade de fazer esse texto puxando pelo lado mais pessoal devido à ligação que tenho com a avenida Paulista, igual a muitos outros paulistanos. Durante seis anos, passei por ela todos os dias por causa de trabalho, fora tantas idas e vindas apenas por lazer, dos anos 1990 até hoje. Como sou amante da cidade de São Paulo, ver Avenida Paulista teve um gostinho extra por observar como era a via há quatro décadas. Também foi legal analisar a produção de uma série fruto de outra era da televisão.

Um fato importante é que Avenida Paulista foi majoritariamente gravada em locações, indo pouco ao estúdio. O escritório onde boa parte da trama se passa, por exemplo, usou a estrutura de um prédio que ainda está de pé: o edifício Pedro Biagi.

A minissérie mostra várias tomadas do prédio. A primeira cena já é dele, visto de cima, quando o helicóptero trazendo o banqueiro Frederico Scorza (Walmor Chagas) chega para pousar. Algumas cenas mostram a Paulista pela janela do escritório de Scorza, dando para notar como a avenida ainda tinha muitos casarões naquela época.

No primeiro episódio, o drama acompanha o personagem de Antonio Fagundes, o ambicioso economista Alex Torres, saindo do prédio, momento no qual se percebe uma escultura azul, estrutura que é criação do artista Franz Weissmann (pode ser vista por lá hoje).

O edifício Pedro Biagi fica no número 460 da avenida Paulista. Bem em frente, atualmente está uma das entradas para a estação Brigadeiro, da linha 2-Verde do Metrô de São Paulo. Alex Torres não poderia pegar o metrô porque a estação foi inaugurada em 1991.

Interior do hotel Maksoud Plaza na série Avenida Paulista
Interior do hotel Maksoud Plaza na série Avenida Paulista

Outros pontos de SP em Avenida Paulista

A minissérie acompanha as artimanhas que rolam nos bastidores do mercado financeiro paulistano. De tabela, segue os passos de gente da elite, retratando esse mundo em cada detalhe, desde o jeito de falar ao modo de se vestir, assim como os lugares que frequentam.

Alex Torres veio do interior (Ribeirão Preto) para São Paulo. Ao chegar na cidade grande, ele se hospeda no hotel Maksoud Plaza. Hoje fechado, o local foi durante muito tempo um dos pontos mais chiques e badalados da capital paulista. A minissérie Avenida Paulista mostra cenas raras, pois entrou no hotel, destacando o grande saguão e o icônico elevador.

Tem ainda cenas no Aeroporto de Congonhas, Masp, Jockey Club… Fora a balada Regine’s, uma boate tida como clube privativo, só frequentada por integrantes da tal “high society”. O endereço era na avenida Brigadeiro Faria Lima, esquina com a rua Jorge Coelho.

Os detalhes da minissérie histórica

Avenida Paulista foi apenas a segunda minissérie feita pela Globo. Em movimento para combater a enxurrada de “enlatados” (produções americanas) que tomavam conta da TV brasileira, a emissora carioca começou a investir nesse formato, de histórias com começo, meio e fim desenroladas em poucos capítulos. E com exibição no horário nobre, na faixa das 22h.

Como dito anteriormente, o fato de muitas das cenas serem em locações já é um diferencial determinante, se distanciando das novelas feitas em estúdios. A qualidade da atuação está no mesmo nível de qualquer outra produção audiovisual do período, bem aceitável.

Questões técnicas, como edição e captação de som, deixam a desejar, mas são deslizes compreensíveis à vista dos olhos de hoje. Tanto a qualidade da imagem quanto do som chegam a ficar diferentes a cada corte de imagem (na troca de enquadramento, por exemplo).

Um aspecto bem positivo é a qualidade do texto. O roteiro é muito bem desenvolvido e claro. Não há o didatismo das novelas, porém ocasionalmente personagens explicam o que está acontecendo para situar melhor o telespectador desatento. 

Levando em conta que os episódios eram diários, e precisavam deixar aquela sensação de quero mais após o final de cada um deles, os ganchos narrativos funcionam com eficiência.

Outra característica que chama a atenção é o português bem descrito no roteiro. Todos personagens falam o idioma de forma correta e culta, com poucas gírias, refletindo a época e o extrato da sociedade ali presente. Isso mudou bastante com o tempo, principalmente na dicção de palavras e uso de concordâncias.


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