
Nesta terça-feira (24), a partir das 22h, a série Demolidor: Renascido chega com sua segunda temporada no Disney+ apresentando um tema que, coincidentemente, reflete a tensão social vivida nos Estados Unidos sobre o governo de Donald Trump. Quem assiste percebe os paralelos entre ficção e realidade, embora a equipe criativa do drama afirme que tudo não passe de coincidência.
A trama retorna mostrando o domínio cada vez mais autoritário de Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), prefeito de Nova York. O ponto de partida surge no desfecho da primeira temporada, quando o líder político declara guerra aos vigilantes e inaugura uma ofensiva destinada a erradicar qualquer forma de dissidência.
A principal ferramenta desse projeto é uma força especial encarregada de capturar opositores nas ruas e levá-los para um depósito secreto repleto de jaulas improvisadas. A atuação desse grupo, dentro da narrativa, lembra o método adotado pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), órgão responsável por fiscalizar a imigração nos EUA. A semelhança visual também chama atenção: os agentes vestem uniformes pretos e cobrem o rosto, aparência parecida com a de membros mascarados da agência americana.
Segundo o showrunner Dario Scardapane, o desenho dessa tropa surgiu bem antes de qualquer acontecimento real. Em entrevista à Entertainment Weekly, o produtor afirmou ter concebido o figurino mais de dois anos atrás.
Em determinada cena há um confronto direto entre autoridades e civis. Um integrante dessa tal unidade invade um restaurante cipriota em busca de um suspeito. O proprietário reage com desprezo, cospe no chão e acusa o oficial de fascismo, gesto capaz de transformar o desentendimento em um embate carregado de tensão.
“O que vemos rolar nas ruas de Nova York em Demolidor: Renascido se passou no Chipre, em 1974”, contextualizou o showrunner. “Se voltarmos à ascensão histórica de autocratas, seja Nero, seja Augusto Pinochet, seja Francisco Franco, todos eles seguem um padrão.”
Outro momento mostra agentes retirando à força uma mulher de uma pequena mercearia de bairro e colocando-a em uma van preta sem identificação. Manifestantes cercam o veículo enquanto o sequestro ocorre diante de todos. Scardapane afirmou ter concebido essa sequência como homenagem ao filme Fruitvale Station: A Última Parada (2013), dirigido por Ryan Coogler, obra lembrada por denunciar abusos de poder contra comunidades marginalizadas.
Scardapane reconheceu serem inevitáveis comparações com Donald Trump e com o ICE, algo que o público deve perceber ao acompanhar os novos episódios. Já Sana Amanat, produtora-executiva da Marvel, pontuou que histórias parecidas com a narrada por Demolidor: Renascido na segunda temporada existem aos montes no universo dos heróis, principalmente na Marvel.
“É impressionante”, disse Amanat sobre as semelhanças com a realidade atual. Ela citou diversos quadrinhos, entre eles Ms. Marvel e X-Men, como narrativas que exploram a ideia de uma figura autoritária que culpa comunidades marginalizadas para conseguir levar adiante seus próprios planos. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



