POR TRÁS DO DESEJO

Mulheres são quem mais assiste a Rivalidade Ardente; saiba por quê

Série disponível na HBO Max explora um romance gay improvável
DIVULGAÇÃO/CRAVE
Connor Storrie (à esq.) com Hudson Williams em Rivalidade Ardente
Connor Storrie (à esq.) com Hudson Williams em Rivalidade Ardente

Entre tantas coisas impressionantes acerca da série Rivalidade Ardente, há um dado particularmente curioso. O drama romântico gay, ambientado no mundo do hóquei no gelo, é mais visto por… mulheres. Elas são a força principal por trás desse fenômeno, dinâmica que chama a atenção e não exclui homens homossexuais (embora alguns deles torçam o nariz pelo que chamam de “gays usados como fetiche feminino”).

A audiência de Rivalidade Ardente, seja qual for o país, é majoritariamente formada pelo público feminino, situação capaz de surpreender até os executivos da HBO Max e da plataforma canadense Crave. 

Mulheres de perfis variados, heterossexuais, bissexuais ou sem rótulos definidos, formam a espinha dorsal da série que desafia previsões convencionais. Afinal, trata-se de um drama centrado em um romance entre dois homens, com cenas íntimas apresentadas sem pudor excessivo e um nível de explicitude raro para produções do gênero.

O aparente ineditismo, porém, esconde uma história longa e pouco visível. Desde os anos 1970, criadoras japonesas de mangá já exploravam narrativas românticas protagonizadas por personagens masculinos envolvidos entre si. Na década seguinte, esse tipo de ficção ultrapassou fronteiras e ganhou contornos artesanais em várias partes do planeta, com fãs construindo relações imaginárias entre figuras populares da cultura pop.

O movimento extrapolou o ambiente digital e chegou ao mercado editorial tradicional, abrindo espaço para romances centrados em casais gays masculinos concebidos especificamente para o olhar feminino.

“Os homens nesses contos são reconfigurados”, comentou o professor Guy Mark Foster, para a revista The Hollywood Reporter; ele é professor universitário de literatura norte-americana do século 20. “Eles não são homens tóxicos. Não saem com várias pessoas ao mesmo tempo. Interessam-se pelo prazer do parceiro, não apenas pelo próprio prazer.”

Rivalidade Ardente não é um pornô explícito. Entretanto, o drama ultrapassa o mero subentendido: há nudez, sequências prolongadas de intimidade (masturbação e penetração) e representações detalhadas da vida sexual dos protagonistas. Tudo embalado por acabamento técnico sofisticado, corpos idealizados e uma narrativa que equilibra erotismo com envolvimento emocional, diálogo afetuoso e construção romântica.

Rachel Reid, autora do livro homônimo que deu origem à série, tem a sua teoria sobre o motivo pelo qual tantas mulheres se sentem atraídas pela sua obra:

“Muitas das minhas leitoras preferem que não haja uma mulher no livro por causa de seus próprios passados, geralmente sombrios, em relação ao sexo com homens. Elas preferem se perder em uma fantasia em que não exista ninguém com quem possam se identificar diretamente. Não querem se inserir nessas cenas de sexo. Isso simplesmente parece mais seguro.”

Sendo mais prática, a escritora complementou esse argumento usando uma simples lógica matemática da sexualidade humana. Se você gosta de pênis, o raciocínio é que dois são melhores do que um, certo? “Homens gostam de pornografia lésbica. Então, por que as mulheres não gostariam disso [sexo gay]?”.

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