
A trajetória da Netflix, que começou de forma quase artesanal no fim dos anos 1990, atingiu um ponto de inflexão histórico no fim de 2025. A empresa confirmou a aquisição dos estúdios e ativos de streaming da Warner Bros. Discovery numa operação avaliada em cerca de US$ 82,7 bilhões.
O acordo, ainda sujeito à aprovação de órgãos reguladores, redesenha o mapa do entretenimento mundial e consolida a Netflix como a força mais poderosa da indústria audiovisual contemporânea.
E tudo começou com o aluguel de DVDs entregues a domicílio…
A história completa da Netflix
A escala da operação que sacudiu Hollywood contrasta com as origens modestas da companhia. Fundada em 1997 por Reed Hastings e Marc Randolph em Scotts Valley, Califórnia (EUA), a Netflix nasceu como um serviço de aluguel de DVDs enviados pelo correio. A proposta era simples e, à época, disruptiva: acabar com as multas por atraso cobradas pelas locadoras tradicionais, utilizando um sistema de assinatura e os hoje icônicos envelopes vermelhos.
Quando a companhia surgiu, a locação de filmes e séries era dominada por lojas físicas, como a famosa Blockbuster. Hastings teve a ideia após pagar uma multa por ter devolvido com atraso uma cópia do premiado filme Apollo 13 (1995).
Inicialmente, a Netflix funcionava como uma loja de aluguel de DVDs, oferecendo um serviço no qual os clientes podiam selecionar diversas atrações em um site e recebê-las diretamente em suas casas.
A inovação estava no fato de não haver prazos rígidos para devolução nem multas por atraso, o que conquistou muitos consumidores. O modelo de assinatura, introduzido em 1999, permitia aos clientes alugar quantos DVDs quisessem por uma taxa mensal fixa.
O surgimento do streaming
A virada decisiva ocorreu em 2007, quando a empresa apostou na expansão da internet de alta velocidade e lançou seu serviço de streaming. A decisão antecipou um novo padrão de consumo audiovisual e ajudou a popularizar o hábito de assistir a vários episódios em sequência, prática que se tornaria um traço marcante da era digital.
Durante os primeiros passos nessa empreitada inovadora, o catálogo era limitado, mas cresceu rapidamente à medida que a empresa fechava acordos com estúdios e distribuidoras.
O passo seguinte foi ainda mais ambicioso. Em 2013, a Netflix deixou de ser apenas uma fornecedora para se tornar produtora de conteúdo próprio. Séries como House of Cards e Orange Is the New Black demonstraram que a plataforma era capaz de competir diretamente com as principais grifes da TV.
Audiência Global
Entre tantas marcas, a gigante do streaming é conhecida por facilitar o acesso a produções internacionais, antes restritas a canais pagos obscuros. Quem gostava de ver uma série dinamarquesa, coreana ou nigeriana, tinha de garimpar.
A plataforma passou a investir no mercado mundial de produções originais em meados da década passada. A ficção brasileira 3% (2016-2020) foi a primeira atração da Netflix de língua não inglesa a fazer sucesso em todo o planeta, abrindo as portas para outras tantas séries além do eixo EUA-Reino Unido.
Com isso, a Netflix virou um fenômeno global, cravando um espaço definitivo na cultura pop.
Fora conquistar uma audiência formada por pessoas de todas as idades e nacionalidades, a Netflix mirou nas premiações mais importantes da TV, buscando o tão desejado prestígio da academia e da crítica. O maior palco é o Emmy e estas são as principais vitórias:
- 2021 – The Crown, melhor drama no Primetime Emmy, o Oscar da TV
- 2021 – O Gambito da Rainha, melhor minissérie no Primetime Emmy
- 2022 – Sex Education, melhor comédia no Emmy Internacional
- 2022 – Heartstopper, melhor série jovem adolescente no Children’s and Family Emmy
- 2023 – A Imperatriz, melhor drama no Emmy Internacional
- 2024 – Divisão Palermo, melhor comédia no Emmy Internacional
- 2024 – Depois da Cabana, melhor minissérie no Emmy Internacional
- 2024 – Bebê Rena, melhor minissérie no Primetime Emmy
- 2025 – Adolescência, melhor minissérie no Primetime Emmy
Da remessa de DVDs pelo correio a uma aquisição bilionária que envolve alguns dos ativos mais valiosos do entretenimento hollywoodiano, a Netflix construiu um império em menos de três décadas. A compra da Warner Bros. Discovery não só coroa essa trajetória, como inaugura um capítulo no qual a empresa deixa de ser uma mera protagonista para se tornar, de forma incontestável, o eixo central da indústria audiovisual. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



