
Criadora de The Hunting Wives, Rebecca Cutter observa com naturalidade o fenômeno que tomou conta das redes sociais acerca da série sensação do ano disponível na Netflix. A resposta do público revela algo além do entusiasmo habitual: mulheres heterossexuais têm demonstrado curiosidade e excitação diante da carga queer da trama, enquanto o público LGBTQIA+ acolheu a produção como um entretenimento provocador e libertador.
“Sou muito grata por ver uma resposta tão acalorada da comunidade queer e uma reação entusiasmada de espectadoras heterossexuais. Adoro que não precisemos definir isso”, disse Rebecca, em entrevista para o site Out. “Sou casada há muito tempo com um homem incrível. Também já tive relacionamentos com mulheres no passado. Vamos todos simplesmente ser curiosos.”
“Vamos permitir que as mulheres que estão assistindo à série sejam curiosas consigo mesmas”, continuou a showrunner. “Em meio a tantas coisas terríveis, se por alguns segundos você puder se distrair e se excitar com mulheres sensuais, ótimo.”
O fator-chave para essa conquista bem específica, que diferencia a produção das demais, é o comando feminino atrás das câmeras. Todos os episódios foram dirigidos por mulheres, proporcionando assim um olhar respeitoso, único e cirúrgico nas cenas mais sensíveis.
O apelo de Casadas e Caçadoras
Baseada no romance homônimo de May Cobb, lançado em 2021, a série The Hunting Wives (batizada em português de Casadas e Caçadoras) rapidamente se transformou em assunto recorrente nas redes sociais, impulsionada por imagens e comentários que destacam a tensão erótica entre Margo, personagem de Malin Åkerman, e Sophie, vivida por Brittany Snow.
O contraste entre a texana segura de si (Margo), envolta em uma aura de sensualidade, e a recém-chegada de origem aristocrática da Nova Inglaterra (Sophie), deslocada em uma comunidade supostamente conservadora, funciona como motor narrativo e desperta um fascínio coletivo.
Rebecca afirmou que o que a atraiu no livro foi justamente a ausência de pudor moral dos personagens. Para ela, o interesse está na ambiguidade das relações, na possibilidade de sentimentos contraditórios coexistirem e moverem a história.
Essa abordagem se reflete na adaptação televisiva, que mistura armas, álcool, drogas, sexo queer e assassinato em uma narrativa deliberadamente excessiva, mas alinhada ao espírito do tempo.
Em meio a debates sensíveis como imigração, aborto e autonomia sexual feminina, a série se apresenta também como uma válvula de escape diante do noticiário pesado do cotidiano.
A criadora falou sobre como foi fundamental a escalação de Malin Åkerman e Brittany Snow como as protagonistas. Sem elas, nada disso teria tido o mesmo impacto.
“Malin foi a primeira pessoa que escalamos. Para mim, isso foi fundamental, porque, sem Margo, a história meio que desmorona, já que é preciso acreditar que se trata de uma mulher tão confiante, tão carismática e tão sexy que qualquer um pode se apaixonar por ela”, comentou.
“Brittany também foi nossa primeira opção para Sophie, porque ela traz a vulnerabilidade, mas daquele tipo de mulher comum com quem é fácil se identificar”, acrescentou. “Além disso, eu sabia que ela poderia percorrer essa jornada como Sophie, começando de forma bem contida e chegando a florescer de um jeito realmente intenso e até meio maluco ao longo da temporada”. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



