
Politicamente incorreta, a série The Boys tem como alicerce uma crítica pesada e mordaz contra a direita, zomba de extremistas e ironiza valores considerados conservadores e reacionários. O criador Eric Kripke, que não esconde seu lado político, resolveu virar o jogo por um instante e ridicularizou a esquerda com muita sagacidade: escolheu atores de Hollywood como inspiração para a piada.
No quinto episódio da quinta temporada, lançado pelo Prime Video nesta quarta-feira (29), The Boys tira onda da chamada “esquerda caviar”, formada por pessoas de elite e desconectadas da realidade, acreditando piamente que um artigo em uma revista ou num site prestigiado vai mudar o mundo.
Kripke colocou pai e filho, Soldier Boy (Jensen Ackles) e Capitão Pátria (Antony Starr), em Hollywood. A missão era encontrar o super Sr. Maratona, vivido por Jared Padalecki, e descobrir o paradeiro do composto V1. Ao chegar à mansão do herói corredor, vários atores estavam reunidos em uma jogatina: Seth Rogen, Will Forte, Christopher Mintz-Plasse, Kumail Nanjiani e Craig Robinson.
Todos estavam discutindo sobre como o fascismo tomou conta dos Estados Unidos após o Capitão Pátria assumir de vez o controle do país e perseguir qualquer pessoa que demonstre o mínimo de oposição.
Os atores pensam em um protesto online, nas redes sociais, para demonstrar que são contra esse autoritarismo, mas logo se perdem ao tentar achar uma cor para simbolizar o protesto… E surge a ideia de publicar um editorial na The Atlantic, escrito por Lena Dunham (Girls); daí sim o jogo pode virar…
“A esquerda é muito boa em arrancar a derrota das garras da vitória e costuma ser bastante ineficaz na forma como se comunica”, comentou Eric Kripke, showrunner de The Boys, em entrevista ao site The Hollywood Reporter. Ele falou sobre a visão elitista do campo progressista, sendo atores hollywoodianos perfeitos na encenação dessa paródia.
“Eu adoro aquela fala: ‘Vamos chamar a Lena Dunham para escrever um artigo de opinião para a The Atlantic’, como se viver nessa bolha ideológica de esquerda fosse, de alguma forma, alcançar as pessoas [comuns].”
“Parece que as intenções estão no lugar certo, mas eles acabam funcionando como um pelotão de fuzilamento circular, desconectados do que os Estados Unidos realmente precisam”, continuou Kripke. “Enquanto não melhorarmos nisso, vamos continuar apanhando. Foi esse o ponto que quisemos destacar [nessa parte do episódio].”
O showrunner abriu espaço a essa autocrítica em contraponto às mensagens sociais e políticas da série que são, obviamente, enviesadas. Enquanto colegas de profissão tradicionalmente fogem pela tangente ao falar sobre uma suposta isenção no processo criativo, o showrunner não esconde a parcialidade inserida no desenvolvimento de The Boys.
“Eu claramente tenho uma perspectiva, tomo partido e não tenho vergonha de colocar esse ponto de vista na história”, afirmou. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



