
O Prime Video lançou, nesta sexta-feira (27), a série britânica Sweetpea, protagonizada por Ella Purnell, a mesma de Fallout. Se no drama apocalíptico a atriz vive uma personagem pueril, que acredita na cegueira da justiça e na bondade das pessoas, aqui ela encarna uma mulher mais real e pé no chão.
Ella interpreta Rhiannon Lewis em Sweetpea, uma moça tímida e invisível que é levada ao extremo quando seu pai morre e sua agressora dos tempos de escola volta para a cidade, trazendo à memória os tempos da adolescência quando era vítima de bullying.
O contraste com Fallout é evidente logo na primeira cena. Pensamentos sombrios tomam conta de Rhiannon: ela deseja matar todo mundo ao seu redor, de colegas do jornal onde trabalha a uma atendente distraída do mercadinho. Isso ocorre porque ela se sente ignorada, pois ninguém lhe dá bola.
Passar pela vida sem ser notada testa os limites da protagonista. O ponto de ebulição ocorre quando decide pleitear uma vaga de repórter júnior no jornal, almejando ser mais do que uma mera assistente/recepcionista. Seu chefe a descarta sob o argumento de lhe faltar “instinto assassino” (ironia involuntária) e concede o cargo a um jovem com QI (quem indica), aparentemente apadrinhado.
Tomada pela fúria e determinada a chegar às vias de fato, ela segue o rapaz até um túnel, empunhando um velho canivete do pai. O impulso termina de maneira patética: Rhiannon fere a si mesma.
Rhiannon surta de vez, após um acúmulo de frustrações e notícias negativas, ao discutir com um homem aleatório em sequência na qual Ella demonstra seu talento em um papel maduro.
A atriz constrói uma protagonista encolhida, quase apagada, antes de projetá-la em explosões de violência que surpreendem tanto os personagens ao redor quanto o espectador.
Além disso, Sweetpea captura com precisão o desconforto peculiar de reencontrar, na fase adulta, quem praticou bullying na juventude. Para a vítima, as marcas permanecem vívidas; para o agressor, muitas vezes, trata-se de uma lembrança irrelevante.
A brutalidade é alegórica, contrastando com a de Fallout, pintada como forma de sobrevivência. Sweetpea descortina um mundo de uma personagem similar a tantas pessoas espalhadas por aí, que sentem-se invisíveis e colecionam fracassos. Ella Purnell, de modo surpreendente, demonstra versatilidade na pele de protagonistas tão distintas; e simultaneamente, registra-se, pois ela intercala um trabalho com o outro. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



