
Lançada em 2008, a série O Mentalista está em alta após entrar na Netflix, no último domingo (1º), alcançando grande sucesso de audiência não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Tamanha fascinação faz sentido, pois a narrativa de vingança, no molde dos tradicionais dramas policiais procedurais, é viciante.
Dito isso, cabe a pergunta: por que O Mentalista foi cancelada na sétima temporada? Afinal, durante boa parte do período de exibição nos Estados Unidos (rede CBS), a atração registrou bons números no ibope. Além disso, sempre vendeu bem internacionalmente; no Brasil, fez parte da programação do SBT e do Warner Channel.
O principal erro foi forçar a continuação depois de concluir o arco narrativo central no decorrer da sexta temporada. A emissora forçou a barra ao encomendar a sétima leva, em maio de 2014, sem o anúncio de que seria a última. Quatro meses depois, após se dar conta da baixa qualidade do material entregue pela produção nessa nova fase da série, executivos da CBS decretaram o fim.
Vale a pena mergulhar nos bastidores e entender detalhes por trás dessa decisão.
Acertos…
O Mentalista nunca chegou a ser um fenômeno absoluto na TV, porém construiu uma base fiel de admiradores. A combinação entre investigação policial e o carisma ambíguo de um falso médium transformado em consultor foi suficiente para garantir relevância durante anos.
Quando estreou na programação da CBS, exibida na cola da badalada NCIS, a série protagonizada por Simon Baker fez bonito na medição de audiência. O auge da primeira temporada registrou 19,7 milhões de espectadores (“ao vivo”) em um único episódio, impulsionados pelo magnetismo de Patrick Jane, personagem de Baker.
O ex-vidente farsante passou a colaborar com o California Bureau of Investigation (CBI), auxiliando a equipe liderada por Teresa Lisbon, vivida por Robin Tunney.
A mudança de rumo profissional de Jane tem origem em uma tragédia pessoal: sua esposa e filha foram assassinadas por um serial killer conhecido somente como Red John. Movido por obsessão e desejo de vingança, ele transforma cada caso resolvido ao lado do CBI em uma oportunidade para se aproximar do inimigo, sempre atento à marca registrada do assassino, um rosto sorridente desenhado com sangue.
Assim, embora mantivesse a estrutura tradicional de “caso/crime da semana”, a narrativa era sustentada por um arco contínuo, que girava em torno da caçada ao homicida.
Com o passar dos anos, entretanto, a audiência começou a dar sinais de desgaste. A partir da quarta temporada, os índices encolheram gradativamente, chegando a 11,2 milhões de espectadores no sexto ano.
…e erros
Em entrevista ao site Deadline, o produtor executivo Tom Szentgyorgyi revelou que Peter Roth, da produtora Warner Bros. Television, avaliava que a trama de Red John já não se mostrava capaz de sustentar a produção. A leitura era simples: para sobreviver além da sexta temporada, seria necessário encerrar a história do vilão e reformular completamente o programa.
A decisão foi colocada em prática ainda no sexto ano. Embora os roteiristas imaginassem que o desfecho natural seria Jane capturar seu algoz e, com isso, concluir a série, a emissora autorizou uma temporada adicional, a sétima, posteriormente definida como a última.
A solução encontrada foi promover uma ruptura narrativa. Após finalmente matar Red John, o protagonista deixa o país e, mais tarde, aceita integrar o FBI, impondo condições próprias à nova parceria.
Sem a sombra permanente de Red John, Jane perdeu o motor sombrio orientador de suas ações. A atmosfera tornou-se mais institucional, menos tolerante aos métodos pouco ortodoxos do protagonista, ainda que, em determinados momentos, tais restrições parecessem convenientemente flexibilizadas.
A reinvenção, no entanto, não foi suficiente para reverter a tendência de queda. E bem no meio das gravações da sétima temporada, a CBS optou pelo cancelamento. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



