
A segunda temporada de Jack Ryan (Prime Video), lançada em outubro de 2019, teve como foco uma operação da CIA, a agência de inteligência americana, na Venezuela. Trechos dessa leva ressurgiram na internet um dia depois do ataque real do governo dos Estados Unidos contra o país caribenho, ação violenta e sangrenta ocorrida no último sábado (3) para capturar Nicolás Maduro, ditador venezuelano.
Muitos começaram a levantar a hipótese de uma possível premonição da série, principalmente ao destacar uma cena na qual o protagonista Jack Ryan, vivido por John Krasinski, cita ativos naturais da Venezuela, como o fato de ter a maior reserva de petróleo de todo o mundo. Seria essa uma das motivações para uma intervenção americana na nação bolivariana, tanto na ficção da série quanto na realidade atual.
Quando a segunda temporada de Jack Ryan estreou, Donald Trump estava no terceiro ano de seu primeiro mandato. Na época, ele já tinha Maduro como um dos seus principais inimigos, com direito a uma recompensa milionária para quem o capturasse. Por essas e outras, pessoas do governo venezuelano entenderam a narrativa do drama de espionagem como uma provocação, acusando-a de incentivo à invasão estrangeira.
No caso, Ryan agiu em uma missão focada na corrupção da Venezuela corrupta, na qual Caracas, sua capital, ocupava um papel central em uma conspiração global envolvendo armas nucleares.
O ministro da Cultura da Venezuela naquele período, Ernesto Villegas, reagiu publicamente e classificou a série como “propaganda de guerra grosseira disfarçada de entretenimento”. Em postagens nas redes sociais, ele afirmou que tal discurso reforçava pensamentos defendidos por setores de Washington, cujo objetivo era orquestrar uma ação militar na Venezuela.
A sinopse oficial apontava que o agente Jack Ryan recebeu “a tarefa de restabelecer o equilíbrio em um país à beira do colapso”. Na virada da década, a Venezuela já enfrentava uma crise financeira de grandes proporções, passou por eleições fraudulentas e forças governistas reprimiram opositores. Também havia hiperinflação, escassez de alimentos e uma migração em massa (não muito diferente do cenário de 2025/2026).
Essa sombra pairou sobre a segunda temporada da atração do streaming da Amazon. O assunto dominou até as entrevistas prévias que os atores faziam para promover os novos episódios. À revista Veja, John Krasinski foi categórico ao negar que a série fez qualquer tipo de incentivo a uma invasão na Venezuela.
“Como nos livros, o momento histórico e político é o fundo da trama e não a situação. Aqui, a Venezuela é o cenário para uma jornada de vingança”, comentou o ator. “Tiramos um pouco de cada livro de Clancy, mais do que da real situação política da Venezuela.”
Por sua vez, Wendell Pierce, que deu vida ao agente James Greer, sendo parceiro fiel de Ryan, adotou um tom mais crítico: “A série explora o dia a dia das pessoas que vivem naquela situação, que estão vulneráveis. Não nos propomos a expor a complexidade política da Venezuela, mas não deixamos de olhar para a dificuldade.”
Em tempo: Nicolás Maduro não foi retratado em Jack Ryan, ao menos de forma direta. O presidente venezuelano fictício, chamado de Nicolás Reyes (Jordi Mollà), fazia clara alusão ao ditador. Reyes entra na mira da CIA por suspeita de estar negociando e armazenando em seu território armas de destruição em massa, em parceria com a Rússia. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



