
Líder de audiência na Netflix, o k-drama Bon Appétit, Vossa Majestade apresenta uma narrativa mirabolante e um tanto quanto engraçada. Misturando culinária, romance e fantasia, a série acompanha uma chef talentosa que viaja no tempo até a época da Dinastia Joseon (1392–1910) e conquista o paladar de um rei tirano com seus pratos modernos.
Bon Appétit abusa da sagacidade e brinca com essa situação bizarra, enquanto explora o absurdo de uma mulher moderna, do século 21, jogada do nada na Coreia do Sul dos anos 1600.
Até para entender melhor a trama da série Bon Appétit, Vossa Majestade, vale mergulhar no passado da Dinastia Joseon, história pouco conhecida no Ocidente.
Em tempo: o nome Joseon refere-se a um antigo Estado que havia dominado a península coreana em tempos remotos.
A história real da Dinastia Joseon
No ano de 1392, o general Yi Seong-gye, insubordinado ao regime corrompido de Goryeo, derrubou o último monarca e, sob seu trono, estabeleceu a Dinastia Joseon, que se tornaria a mais duradoura da história coreana, estendendo-se por mais de meio milênio.
Ele transferiu a capital para Hanyang (atual Seul) e instaurou o neoconfucionismo como princípio supremo da ordem moral e política, relegando o budismo que se tornara cúmplice da decadência.
Sob o reinado de Sejong, o Grande (quarto soberano), floresceu o espírito inovador do reino. A escrita Hangul, sistema fonético acessível ao povo, foi concluída em 1443; uma academia real, o Jiphyeonjeon, reuniu eruditos para cultivar conhecimento em áreas como astronomia, literatura e história.
Não faltaram adversidades na Era Joseon. Em 1592, a invasão japonesa liderada por Toyotomi Hideyoshi arrasou o país, reconstruindo-o, ao menos em parte, graças ao brilhantismo naval do almirante Yi Sun-shin, que travou vitórias decisivas para conter os invasores.
Pouco depois, as invasões manchus e a ascensão da dinastia Qing enfraqueceram ainda mais o poder central; Joseon tornou-se Estado tributário da China.
Nos séculos seguintes, o reino reconquistou certa estabilidade sob reis como Yeongjo (1724–1776) e Jeongjo (1776–1800), marcando-se um revigoramento nas reformas econômicas e culturais.
No plano social, havia um sistema rigidamente aristocrático. A classe yangban, composta por oficiais literatos e militares, dominava terras e cargos e tocava o Estado.
A burocracia local operava sob uma estrutura hierárquica detalhada, complementada por inspetores secretos que fiscalizavam autoridades provinciais.
Com a aproximação do século 19, o reino ainda se preservava sob o manto do “país recluso”. Contudo, o Tratado de Ganghwa (1876), imposto pelo Japão, marcou o desfecho desse isolamento: portos foram abertos e as potências imperialistas ocidentais começaram a disputar influência sobre a península.
O poder monárquico ruiria lentamente. A rainha Min foi assassinada por agentes japoneses em 1895, e o rei Gojong, buscando autonomia, proclamou-se imperador, adotando o nome Grande Han (Daehan), gesto simbólico de emancipação do jugo chinês.
Contudo, entre a Guerra Sino-Japonesa (1894–1895) e a Russo-Japonesa (1904–1905), a influência nipônica se fortaleceu inexoravelmente. Em 1907, Gojong foi forçado a ceder o trono e, em 1910, o país foi formalmente anexado ao Japão, encerrando os mais de cinco séculos de regime Joseon. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br