
Com base em histórias reais, a série Sem Salvação apresenta o raio x de uma seita cristã envolta em mistérios. Criadora da narrativa, Julie Gearey tomou uma decisão controversa ao definir o destino final de Sam (Fra Fee), um de seus personagens mais polêmicos por ser manipulador nato. O desfecho dele foi positivo.
[Atenção: spoilers a seguir]
Sem Salvação expõe as entranhas de uma comunidade religiosa rígida na qual Rosie (Molly Windsor) vive sob vigilância constante até o momento em que um acontecimento fortuito altera o rumo de sua trajetória. Ao ter a filha, Grace (Olivia Pickering), salva de afogamento por Sam, então um estranho enigmático, ela passa a se aproximar do homem cuja presença abala ainda mais as frágeis estruturas daquele ambiente fechado.
A aproximação, inicialmente pautada pela gratidão, evolui para um envolvimento afetivo que se entrelaça a uma realidade doméstica marcada por violência. O marido de Rosie, Adam (Asa Butterfield), figura ascendente dentro da Fraternidade, mantém uma imagem pública de devoção enquanto lida, em silêncio, com conflitos ligados à própria sexualidade.
Com o tempo, a tensão se intensifica quando surge um elemento inesperado: o próprio Adam demonstra interesse por Sam, instaurando um triângulo permeado por desejo, repressão e hipocrisia.
A figura de Sam, contudo, está longe de ser apenas a de um forasteiro sedutor. Condenado por assassinato, ele se revela um estrategista hábil, capaz de explorar vulnerabilidades alheias para ascender à hierarquia do grupo.
No encerramento da narrativa, as posições se reorganizam. Rosie consegue escapar (da seita e da Adam) por pouco, Adam finalmente assume uma postura de defesa em relação à família e Sam consolida seu domínio sobre a comunidade opressiva.
Por que Sam virou o líder da seita?
O fim de Sem Salvação mostra um salto no tempo de um ano, quando Sam aparece liderando um culto na Fraternidade, vestindo as mesmas roupas que Phillips (Christopher Eccleston) e Adam usavam.
“Acho que a chave para entender o Sam é que ele é, acima de tudo, um sobrevivente”, disse Julie, em entrevista à Netflix. “Ele é um manipulador de primeira linha, alguém que faz de tudo para sobreviver. É isso que o torna um antagonista tão poderoso.”
A decisão da roteirista de colocar a liderança da seita nas mãos de Sam surgiu do desejo de dar ao personagem um percurso o mais completa possível. “Você começa com ele fugindo da prisão e termina exatamente onde ele chega na série”, explicou. “A ideia é sempre dar aos personagens arcos mais amplos ao longo da história, porque isso é extremamente gratificante para o ator e, espero, também para o público.”
Na hora de gravar a cena final, Julie orientou o diretor de fotografia, Philippe Kress, a apostar na ousadia e a “gravá-lo como se fosse uma estrela do rock, com esse ar de mistério e grandiosidade, e depois fazer a revelação com a luz, mostrando ser ele”.
Fra Fee, intérprete de Sam, deu a sua interpretação desse final: “Acho que ele queria estar com alguém e ter uma vida cheia de amor [ao lado de Rosie]. Talvez ele tenha substituído esse amor pela admiração e devoção dos seguidores [da seita], mas todos nós sabemos que isso não é real”. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



