
Disponível completa no Globoplay desde quinta-feira (28), a série brasileira Dias Perfeitos divide opiniões. Se de um lado tem quem exalte a qualidade técnica da produção, assim aplaudem as atuações dos protagonistas, existem espectadores que criticam como a violência contra a mulher foi retratada, alegando altas doses de espetacularização.
Em meio a isso, o escritor Raphael Montes, autor do livro de mesmo nome que serviu de base para a série, foi alvo de comentários negativos nas redes sociais, acusando-o de misoginia (ódio ou aversão às mulheres) e machismo.
Durante entrevista no programa Conversa com Bial, exibido pela Globo na última quinta, a diretora do drama, Joana Jabace, justificou como a violência foi retratada em Dias Perfeitos. Ela assegurou que tudo foi feito após muita análise.
“Esse é um ponto importante em Dias Perfeitos [falando sobre a violência]. Para mim, um ponto muito caro. Refleti muito sobre isso, sobre qual maneira, apesar de não estarmos julgando, iríamos colocar uma imagem. E a imagem é impositiva”, comentou.
“Quando você coloca em uma imagem a ação de violência, você cristalizou aquilo. Como mulher e diretora, tive muita reflexão sobre como realizar isso. Tem escolhas que são estéticas e escolhas que são éticas também.”
Joana comentou que as cenas de violência foram armadas para, na visão dela, justamente não ser um registro espetacularizado. Os protagonistas Julia Dalavia e Jaffar Bambirra tiveram participação nesse processo.
“De qual maneira, a gente ia mostrar o corpo da Clarice [personagem de Julia] sofrendo? E as escolhas que a gente tomou, muito junto com a Julia, o Jaffar, com a equipe da série, era de não tornar um espetáculo o sofrimento da Clarice”, esclareceu.
“Isso era o ponto um. Ponto dois: de não ‘fetichizar’ o corpo da Clarice. De não fazer da Clarice uma mulher objetificada apenas.”
Para Joana, sugerir a violência pode ser mais poderoso do que mostrá-la. “Acho que quando o audiovisual sugere a dor, ele sugere a violência, é mais forte. Porque ele deixa uma lacuna para o espectador completar. Porque é uma história brutal, é a história de um homem que sequestra uma mulher.”
A diretora deu detalhes sobre a cena mais delicada de toda a série: quando Téo [personagem de Bambirra] estupra Julia:
“Quando a gente foi fazer a cena do estupro, temos a cena de estupro sob os dois pontos de vista. Do ponto de vista do Téo, aquela é a primeira noite de um homem. Ele era virgem, e ele está transando com a mulher da vida dele. Quando ele vai transar com Clarice, ele estupra Clarice. Quando a gente foi fazer a cena do ponto de vista da Clarice, me preocupei muito em não mostrar absolutamente nada que não fosse a maneira com a qual a Clarice está sofrendo essa violência.”
A trama de Dias Perfeitos
Dias Perfeitos conta a história da aspirante a roteirista Clarice (Julia Dalavia) e do estudante de medicina Téo (Jaffar Bambirra), que se encanta por Clarice após conhecê-la por acaso.
Diante das negativas da jovem, o rapaz decide sequestrá-la acreditando que, com o tempo, ela irá correspondê-lo.
Enquanto mantém Clarice distante de todos, Téo a leva para uma viagem horripilante pelas belas paisagens do Rio de Janeiro. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br