
O mundo das séries ainda está perplexo com o cancelamento de The Boroughs, decretado na última quarta-feira (17). Afinal, trata-se de uma produção bem-avaliada pela mídia especializada, aceita pelo público e com boa audiência, a ponto de ser vice-líder no ranking da Nielsen, o Ibope americano. Então, por que a Netflix decidiu acabar com a ficção científica menos de um mês após o lançamento?
Um fator pesou mais do que os outros: alto custo da produção. Na hora de decidir pela renovação ou fim de uma série, a Netflix considera, em linhas gerais, o volume da audiência em relação ao investimento feito nela. Por isso, tem atrações que, mesmo com pouca repercussão, são renovadas, simplesmente pelo fato de serem baratas.
No caso de The Boroughs, cada episódio custou US$ 10 milhões. O custo final dos oito episódios foi de US$ 80 milhões (R$ 414 milhões). Embora o sci-fi produzido pelos irmãos Duffer (Matt e Ross), criadores de Stranger Things, tenha registrado desempenho considerado sólido, os números ficaram longe de fenômenos da gigante do streaming, algo esperado pelos executivos da plataforma.
Há, contudo, outro elemento nessa situação. A recente saída de Matt e Ross para o grupo Paramount, após a assinatura de um contrato de quatro anos, teria provocado desconforto entre pessoas do alto escalão da Netflix. Esse tipo de mudança, comum no mercado hollywoodiano, causou constrangimento nos corredores da empresa do tudum.
Fora isso, tem a questão de The Boroughs ter nascido sob uma administração diferente daquela atualmente responsável pelas principais decisões da Netflix. A aprovação original partiu de Peter Friedlander e Blair Fetter, executivos hoje vinculados à Amazon MGM Studios. Na Paramount, os irmãos Duffer reencontram antigos aliados: Cindy Holland e Matt Thunell, ex-executivos da gigante do streaming.
A batida do martelo acerca do fim da série se deu em 15 de junho, data-limite para a renovação das opções contratuais do elenco. A Netflix optou por não estender os acordos, encerrando na prática qualquer possibilidade de continuidade. Não há nenhuma expectativa de retomada futura.
Como a plataforma do tudum detém integralmente os direitos da série e também atua como estúdio responsável pelo projeto, a transferência do título para outra empresa é considerada extremamente improvável. Isso inclui a própria Paramount, atual casa dos irmãos Duffer. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



