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Brasil 70: ditadura militar usou o tri da Seleção como propaganda ufanista

'Todos juntos vamos, pra frente Brasil! Salve a seleção!'
REPRODUÇÃO
Presidente General Médici com Pelé; mistura de ditadura e futebol no Brasil
Presidente General Médici com Pelé; mistura de ditadura e futebol no Brasil

Em meio ao clima efervescente de Copa do Mundo, a Netflix lança na sexta-feira (29) uma série sobre o tão aclamado tricampeonato mundial do Brasil, título conquistado no torneio de 1970, realizado no México. Batizada de Brasil 70: A Saga do Tri, o drama nacional narra uma história que mistura política e futebol, quando a ditadura militar usou a Seleção como instrumento de propaganda ufanista.

A sinopse da atração, que conta com Rodrigo Santoro (Westworld) na pele do lendário ex-treinador e comentarista João Saldanha, deixa clara a abordagem a ser explorada nos episódios:

“O enredo se desenrola em um dos momentos mais marcantes, tanto do futebol quanto da história política brasileira, em meio à fase mais dura do regime militar, enquanto a Seleção demonstra sua genialidade em campo sob a enorme pressão de representar um país inteiro.”

Brasil 70: ditadura e futebol

A conquista da Copa do Mundo de 1970 consolidou a imagem do Brasil como potência do futebol, embalado pelo talento de Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivellino, Carlos Alberto Torres… Por trás do brilho dos craques, porém, o tricampeonato acabou incorporado à engrenagem simbólica da ditadura militar, interessada em converter o entusiasmo popular em combustível para o nacionalismo promovido pelo governo.

Sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici, o regime estava em seu período mais severo. O endurecimento institucional provocado pelo AI-5, promulgado dois anos antes, havia ampliado a censura, legitimado perseguições políticas e instaurado um ambiente de medo entre artistas, intelectuais, jornalistas e também figuras ligadas ao esporte. Nesse contexto, a seleção brasileira tornou-se um ativo valioso para um governo empenhado em reforçar a própria legitimidade.

A ligação entre futebol e poder ganhou contornos explícitos ainda antes do Mundial do México. Técnico da seleção até poucos meses da competição, o jornalista João Saldanha, histórico militante do Partido Comunista Brasileiro, tornou-se alvo de atritos por rejeitar interferências externas na equipe. Sua resistência diante de pressões envolvendo convocações vindas do próprio Médici, especialmente no episódio de Dadá Maravilha, alimentou suspeitas de incompatibilidade política com o Palácio do Planalto e precedeu sua saída do cargo.

Após a mudança no comando técnico, a preparação do elenco assumiu traços fortemente militarizados. Integrantes ligados às Forças Armadas ocuparam funções estratégicas na delegação, enquanto a segurança ficou sob responsabilidade de nomes vinculados ao aparato estatal. Entre eles aparecia o major Roberto Câmara Lima Ypiranga de Guaranys, posteriormente citado pela Comissão Nacional da Verdade por participação em práticas de tortura e encarregado de manter o presidente informado sobre a rotina da equipe.

Médici enxergava no torneio uma oportunidade singular. Primeira Copa transmitida ao vivo pela televisão brasileira, o evento oferecia alcance inédito para campanhas patrióticas. O governo explorou esse potencial por meio de slogans nacionalistas e da associação direta entre apoio à seleção e exaltação do país, movimento sintetizado pela célebre canção Pra Frente Brasil. A euforia envolta da camisa canarinho, desse modo, serviu para suavizar a percepção pública acerca da violência política em curso.

Décadas depois, alguns protagonistas daquele time argumentaram desconhecer a dimensão das violações praticadas pelo regime. Tostão, por exemplo, em uma coluna publicada em 2014, afirmou ter compreendido plenamente os crimes da ditadura apenas com o passar dos anos, embora já demonstrasse posicionamento crítico durante a carreira. 

O tricampeonato de 1970 permanece, assim, cercado por uma dualidade histórica. De um lado, uma seleção considerada entre as mais brilhantes já vistas em campo; de outro, um triunfo apropriado por um governo autoritário interessado em transformar paixão esportiva em ferramenta de coesão nacional.

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