
O Disney+ lançou, nesta quarta-feira (4), a quarta e última temporada de Bel-Air, versão dramatizada da amada sitcom Um Maluco no Pedaço; todos os oito episódios estão disponíveis. Embora tenha tido tropeços e escorregões durante a trajetória, o saldo final de Bel-Air é positivo.
Uma dificuldade grave se deu justamente no processo criativo. A partir do momento em que foi decidido fazer um remake dramático da comédia, surgiu uma pergunta simples: como? A resposta ultrapassou o limite da complexidade.
Tinha a corrente a favor de produzir algo na linha HBO, com narrativa densa e complexa. Outra opção seria desenvolver um enredo mais simples de entender, copiando o modelo de dramas da TV aberta americana. Até achar um denominador comum, Bel-Air teve quatro showrunners (!). Carla Banks Waddles assumiu as rédeas na segunda temporada e cruzou a linha de chegada.
A espinha dorsal de Bel-Air
Distante do tom leve e cômico da sitcom que lhe deu origem, Bel-Air assumiu o formato de um drama familiar centrado em adolescentes confrontados com dilemas plausíveis e socialmente carregados.
A premissa, antes vista como hilária, passou a revelar fissuras profundas. Um jovem preto retirado abruptamente do bairro onde cresceu, na Filadélfia, é inserido em um ambiente elitista e majoritariamente branco do outro lado do país (Los Angeles). A pergunta implícita (“o que poderia dar errado?”) deixou de ser retórica.
O drama foi feliz na dramatização dos personagens protagonistas de Um Maluco no Pedaço, longe de ser uma cópia cara-crachá:
WILL SMITH
- Na nova abordagem, Will, vivido por Jabari Banks, enfrenta tanto o racismo no ambiente escolar quanto conflitos mal resolvidos com o pai, interpretado por Marlon Wayans, recém-libertado da prisão e reaparecendo em sua vida. Ele é um craque do basquete e busca carreira como empreendedor.
CARLTON
- O Carlton de Bel-Air (Olly Sholotan) nasce como uma figura mais sombria e emocionalmente instável do que o personagem imortalizado por Alfonso Ribeiro, agora sem espaço para a leveza caricata que marcou a versão original. Problemas com a saúde mental, envolvimento com drogas, mentiras compulsivas e pressão acadêmica estão em sua órbita.
GEOFFREY
- O mordomo britânico, interpretado por Jimmy Akingbola, nada mais é do que um fixer, um tipo de Ray Donovan para o Tio Phil. Ele tem um passado, em Londres, ligado ao crime e à marginalidade.
HILARY
- Distante da doce ingenuidade da Hilary de Um Maluco no Pedaço, a personagem de Coco Jones acumula duas profissões, de chef e influencer. Para aumentar o contraste, ela engata um romance com Jazz.
ASHLEY
- Fazendo jus a uma visão mais real, Bel-Air optou por transformar Ashley (Akira Akbar) em uma adolescente engajada, social e politicamente consciente. Nesse turbilhão de emoções, ela explora todas as vertentes de sua sexualidade.
TIO PHIL
- O advogado (papel de Adrian Holmes) em Bel-Air é marombado, com corpo trincado. Tem alimentação saudável e usa o boxe como exercício físico. A série, durante todo o tempo, o coloca flertando com a imoralidade, seja no casamento ou nos negócios.
TIA VIV
- Aqui, tem a personagem que menos sofreu alteração em comparação com Um Maluco no Pedaço. Tia Viv (Cassandra Freeman) segue como a mãezona da família Banks, elo essencial que une o marido Phil com o sobrinho Will. Ela é pintora e mergulha de cabeça no cenário das artes, apesar de dúvidas e insegurança.
JAZZ
- Virou um homem de negócios, dono de uma loja de vinis que se aventura no mercado de produtos derivados da maconha. Apresenta-se como um rapaz responsável e sereno.
E Bel-Air tirou 10 nas referências ao mundo de Um Maluco no Pedaço, citando coisas sutis aqui e ali que o fã da sitcom entende facilmente (vide o caso da gravidez da tia Viv e o nome do bebê). Muitos atores da comédia tiveram participações especiais no drama, todas muito bem inseridas na história e desenvolvidas com primor.
Quatro temporadas foram ideais, mesmo. Bel-Air concluiu a história com Will e Carlton terminando o ensino médio e com os respectivos caminhos traçados rumo à universidade. O desfecho foi adequado e satisfatório.
O caminho até a consolidação, no entanto, encontrou resistência. Críticas iniciais vieram de fãs que viam a releitura como uma afronta a um programa tão querido. Com o tempo, essa percepção mudou. Hoje, muitos espectadores afirmam enxergar Bel-Air como uma obra independente, desvinculada emocionalmente do original.
E esse sempre foi o objetivo, o de criar algo capaz de se sustentar por si só, sem viver à sombra de um legado televisivo consagrado.

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



