ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO

45 anos de Os Gatões: polêmica sobre carro racista mancha legado da série

Comédia de ação chegou a ser o programa número 2 de audiência na TV dos EUA
DIVULGAÇÃO/CBS
Tom Wopat (acima) com John Schneider em foto promocional de Os Gatões
Tom Wopat (acima) com John Schneider em foto promocional de Os Gatões

A clássica série Os Gatões (The Dukes of Hazzard), bastante popular no Brasil por causa de exibições na Globo durante os anos 1980, na nostálgica Sessão Aventura, tem seu legado manchado por causa de uma polêmica. No aniversário de 45 anos, completado nesta sexta-feira (26), a atração vive uma fase melancólica por estar desaparecida da TV e longe dos streamings. Tudo por causa da bandeira estampada no teto do icônico Dodge Charger 1969 laranja e do nome de batismo do carro, chamado de General Lee.

O circo pegou fogo mesmo em 2020, pós-assassinato de George Floyd, homem preto americano morto de forma covarde por um policial branco, caso que gerou comoção e uma onda de protestos em todos os Estados Unidos. A luta, entre outras coisas, resultou no banimento do pavilhão dos Estados Confederados, destacado no veículo símbolo de Os Gatões, considerado preconceituoso.

A tal bandeira (vermelha e com um ‘X’ em azul) representou, durante a Guerra Civil americana (1861-1865), a parte sul dos EUA que lutou a favor da manutenção da escravatura no país e defendia a supremacia branca. Esse lado saiu derrotado da batalha, e a bandeira virou ícone racista e sinal de tolerância à escravidão. Mas ela ainda continua presente, mesmo timidamente, na região nos dias de hoje.

Tem ainda a questão do nome do automóvel laranja. General Lee foi o militar líder do Exército confederado. Também pós-George Floyd, estátuas e monumentos em memória de Lee espalhadas pelos EUA foram alvo de protestos.

Os Gatões: pontos de debate

Exibida entre 1979 e 1985, Os Gatões apresentou uma premissa simples. A trama narrou as aventuras dos primos Luke (Tom Wopat) e Bo Duke (John Schneider), que travavam inúmeras confusões com a polícia por causa das corridas que faziam a bordo do chamativo Dodge Charger, turbinado para disputar rachas na zona rural (fictícia) do Estado da Geórgia, justamente no sul do território americano.

Na TV dos EUA, Os Gatões foi um sucesso inconteste. Chegou a ser, na temporada 1980-1981, a segunda série mais vista, só atrás da memorável Dallas. Foram sete temporadas no total, somando 147 episódios.

Mas a série está no vácuo. Não é possível vê-la em nenhuma plataforma ou canal. De modo legal, só está disponível em raros DVDs que ainda circulam por aí. Acesso online apenas via pirataria.

O debate gerado acerca de Os Gatões se concentra na bandeira dos Estados Confederados. A ala defensora da série não tenta suavizar o significado do emblema, tendo como argumento principal que o uso durante aquela época não carregava qualquer intenção racista por parte dos criadores da trama ou dos próprios personagens. 

A outra ponta, no entanto, diz que a pintura ou o pedaço de pano é muito mais do que isso. A conotação de ódio e preconceito é muito forte para ser ignorada.

Em 2020, bem no meio da repercussão do caso George Floyd que atingiu Os Gatões, os atores da comédia de ação deram suas opiniões ao site The Hollywood Reporter. Disse John Schneider: “Nunca uma pessoa afro-americana veio até mim e teve qualquer problema com isso. Toda essa geração politicamente correta está fora de controle.”

Tom Wopat foi mais conciliatório em sua declaração: “A nossa sociedade obviamente mudou nos últimos 40 e poucos anos. Sinto-me feliz por viver numa época em que podemos resolver algumas das injustiças do passado. Mas o carro é inocente.”

Schneider acrescentou que o apagão da série “é injusto”. Fato é que Os Gatões está indisponível, situação que não deve ser revertida tão cedo. E A Warner Bros., produtora da atração, mantém a decisão de não mais produzir sequer um único item relacionado à comédia que tenha a bandeira polêmica estampada.


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