
A Netflix lança, nesta terça-feira (9), uma das melhores e mais realistas séries policiais já feitas. Entra na plataforma Southland – Cidade do Crime, atração americana exibida de 2009 a 2013 (5 temporadas, 43 episódios). Gravada com muito realismo nas ruas de Los Angeles, a produção acompanha a luta diária de um grupo de detetives e veteranos homens da lei.
Longe de seguir a cartilha tradicional dos dramas policiais que vemos aos montes por aí, Southland constrói um retrato cru de Los Angeles a partir da rotina dos agentes responsáveis pelo patrulhamento da cidade. Em vez de concentrar seus esforços na investigação de crimes semanais, o enredo prioriza os conflitos humanos, explorando as relações, dilemas e fragilidades dos profissionais da polícia local.
A narrativa inicial acompanha diferentes integrantes do Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD), cujas trajetórias se cruzam em meio às tensões do cotidiano.
Entre eles está o novato Ben Sherman (Ben McKenzie), ainda em processo de formação sob a supervisão do experiente John Cooper (Michael Cudlitz), policial cuja homossexualidade permanece desconhecida para grande parte dos colegas.
Também ganham destaque a detetive Lydia Adams (Regina King), equilibrando as exigências da profissão e os cuidados com a mãe; a agente Chickie Brown (Arija Bareikis), determinada a se tornar a primeira mulher a integrar a prestigiada equipe da Swat; e o detetive Sammy Bryant (Shawn Hatosy), frequentemente obrigado a lidar com o impacto da vida familiar sobre o trabalho.
O diferencial de Southland, contudo, vai além de seus personagens. A produção adota um tom áspero e imersivo, transmitindo a sensação de acompanhar acontecimentos reais em tempo presente. Essa busca por autenticidade é reforçada pela presença de policiais do LAPD e de ex-integrantes de gangues no elenco de apoio, recurso capaz de ampliar a verossimilhança das cenas.
A construção dos protagonistas também contribui para essa abordagem. Do entusiasmo excessivo do recruta Sherman à postura reservada da detetive Lydia, os personagens retratados pela série estão longe da imagem idealizada comum ao gênero. Exaustos, sobrecarregados e sujeitos a falhas, eles cometem erros, abusam de sua autoridade ou se tornam vítimas de abusos. Com frequência, enfrentam situações sem saída aparente, obrigados a tomar decisões cujas consequências permanecem incertas.
Outro aspecto marcante da produção reside na forma direta como mostra as relações raciais em Los Angeles. Ao longo da primeira temporada, Lydia Adams observa que um caso de assassinato teria recebido muito mais atenção da imprensa caso a vítima fosse moradora de Brentwood, região rica e majoritariamente branca, e não de South Central. Episódios posteriores aprofundam essa discussão ao tratar da segregação existente na cidade e as percepções raciais presentes entre os próprios oficiais da segurança pública.
Embora se destaque pela fotografia dinâmica e pela direção ágil, a principal força de Southland está em outro lugar. No centro da série encontra-se um drama sólido, sustentado por roteiros consistentes e por uma espinha dorsal rústica, elementos responsáveis por conferir densidade à produção. •

João da Paz é editor-chefe do site Diário de Séries. Jornalista pós-graduado e showrunner, trabalha na cobertura jornalística especializada em séries desde 2013. Clique aqui e leia todos os textos de João da Paz – email: contato@diariodeseries.com.br



